Desde que a Numismática Castro e a Conatus Moedas raras selaram uma parceria para estudarmos e divulgarmos a Numismática Clássica aqui no Brasil, obtive muito contato com a área e pude avançar em meus estudos específicos, inclusive tivemos aqui no Portal Numismáticos excelentes textos sobre o tema. Mas, hoje recebi uma moeda incrível, com uma história incrível e com um valor cultural extremamente alto.

Trata-se de um AE Folis de Fausta, esposa de Constantino, o Grande, datada entre 324 – 325 d.C. ao qual poderemos ver as fotos logo a seguir. Mas o que aconteceu com Fausta para que essa moeda seja tão importante? Bom, vamos contar a história dela desde o inicio.

Flávia Maxima Fausta, foi uma Imperatriz-Consorte Romana, filha do Imperador Maximiano, que teria casado sua filha com o então Co-Imperador Constantino I para selar o controle sobre a Tetrarquia no ano de 307, diga-se de passagem que Constantino naquela época já era casado com Minervina, mas se afastou da esposa em razão do acordo.

Conta a história que Maximiano teria tentado envolver a filha em um complô para matar Constantino no ano de 310, ou seja, três anos após a união dos dois. Entretanto, insatisfeita com a situação, Fausta revelou o plano ao marido, causando assim a morte de seu pai no mesmo ano, não sabemos precisar se por suicídio ou se Maximiano teria sido assassinado.

A Imperatriz Fausta sempre foi muito admirada por seu marido, tendo assim proclamado ela como “Augusta” e “Nobilíssima”, contudo a história de conspirações não teria acabado ai. Segundo poucos relatos o primeiro filho do Imperador Constantino, Crispo, era uma promissor candidato a sucessão do pai, contudo, talvez pelo medo de que um filho seu não fosse o sucessor do trono, Fausta convenceu a seu marido que seu filho Crispo, que tinham a mesma idade, estaria  cortejando ela, ou seja, o popular “dando em cima”. Constantino com sua fúria ordenou então a morte do seu próprio filho. A obra anônima “Epitome de Caesaribus”, afirma que efetivamente Fausta e Crispo teriam realmente tido um caso naquela época. Acontece que pouco tempo depois Helena, mãe de Constantino, teria convencido o filho exatamente do contrário, que Fausta teria agido por inveja ou ciúme e que Crispo teria morrido sem culpa alguma, e assim Constantino teria ordenado a morte de Fausta.

Fausta foi executada em um banho quente, por sufocamento, de acordo com a biografia de Constantino escrita por Paul Stephenson, haveria uma conexão entre a morte e o adultério. Naquela época o aborto era feito dessa forma, e por isso ele sugere que Fausta estaria grávida de Crispo e foi morta durante uma tentativa de aborto, mas isso iria contra os relatos de Helena.

A Vergonha de Constantino foi tão grande que o mesmo ordenou um damnatio memoria para com sua segunda esposa, como já falamos em outro caso aqui no Portal Numismáticos, trata-se de um ataque feroz contra a memória de uma pessoa, onde todos os relatos, escritos ou documentos são apagados para que ninguém lembre ou saiba no futuro que essa pessoa existiu, um damnatio memoriae bem efetuado atinge tanto as lembranças de uma pessoa que até suas moedas são caçadas para que sejam destruídas e por isso essa peça é tão importante, porque simplesmente pela ordem de Constantino I essa peça não poderia mais existir. A maioria dos historiadores da época, como o Bispo Eusébio de Cesareia defendem a memoria do Imperador e por isso não citam Fausta, nem a Crispo, em suas histórias. Uma curiosidade é que Fausta, ainda assim foi mãe de três Imperadores, sendo eles Constantino II, Constâncio II e Contante, que reinaram entre 337 – 361 d.C., nenhum dos três revogaram a ordem do pai, mantendo assim sua mãe na condenação no esquecimento.

David Woods em seu livro “Grécia e Roma”, publicado em Abril de 1998, constrói um relato precioso e completo sobre a história e morte de Flávia Fausta, que foi disponibilizado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, ao qual replicaremos gratuitamente para vocês CLICANDO AQUI, tenham uma ótima leitura!



Para citar este texto:

PADILHA, André Luiz de Castro. Flávia Fausta e seu damnatio memoriae. Portal Numismáticos – Numismática Castro, Novembro 2018. Disponível em: < https://numismaticos.com.br/flavia-fausta-e-seu-damnatio-memoriae >.

 


André Luiz Padilha

Graduado em direito com especialidade em meios alternativos de soluções de conflito e atualmente é estudante de História. Colecionador de moedas desde 1997 e numismata desde 2011. É um ativo divulgador da numismática nacional publicando diversos artigos e estudos por dezenas de plataformas, presta serviços como avaliador e consultor em pelo menos 9 países, também é o fundador da Numismática Castro, do CNERJ e do canal Café e Numismática. É sócio da American Numismatic Association (ANA)

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