Há muito que se discute a imensa dificuldade e falta de flexibilidade que a escala brasileira de graduação de estados de conservação (EC) de moedas oferece. Esta escala é normalmente subdividida em 6 classes (graus) distintas(os): Flor de Cunho (FDC ou FC), Soberba (S ou SOB), Muito Bem Conservada (MBC), Bem Conservada (BC), Regular (R) e Um Tanto Gasta (UTG) [1][2]. Por vezes, não é possível encontrar um nível de EC que descreva adequadamente a moeda e é comum encontrar anúncios em que é adicionado sinais quantitativos, do tipo ++ ou –, numa tentativa de atingir uma descrição mais acurada. No entanto, este método é ainda mais subjetivo e, para este que vos escreve em particular, não significa nada. Serve apenas para aumentar a confusão acerca do real EC da moeda.



Uma forma muito mais precisa de atribuição de EC é utilizar a escala Sheldon, que provê vários estados intermediários com descrições detalhadas acerca de cada um, de forma que é muito mais fácil encontrar uma classe que melhor represente as reais condições da moeda. No entanto, sua utilização encontra resistência, uma vez que a maioria dos colecionadores não está familiarizada com a língua inglesa, nem com as siglas associadas a ela (sinceramente, me causa grande espanto ver colecionadores de moedas estrangeiras que não tem a menor ideia do significado das siglas dos graus de conservação presentes nos catálogos). Numa tentativa de minimizar este problema, venho há algum tempo publicando material em português sobre classificação de moedas no método internacional, como é o caso da Escala Sheldon Traduzida. Ainda assim, há uma certa resistência em abandonar o modelo antigo e adotar a escala Sheldon, de forma que seu uso fica bastante restrito.

Há algum tempo encontrei o artigo “Qualidade das moedas – Um estudo dos graus de conservação” da editora Bentes, que propõe a subdivisão dos seis grupos da escala brasileira em 10 grupos numerados como forma de diminuir a problemática do EC na escala brasileira. No entanto, a proposta descrita no artigo esbarra na falta de definições específicas para cada subdivisão, com a descrição ficando extremamente subjetiva. Por ex., quais critérios determinariam que uma moeda é MBC42 e não MBC48? Não há nenhuma descrição mais específica a respeito e, provavelmente, somente quem criou a escala estaria em condições de atingir uma graduação minimamente precisa. No entanto, a ideia de uma escala brasileira com diferenças entre as graduações é bem interessante e, neste ponto, o artigo da Bentes é bastante positivo, embora a proposta de subdivisão seja pouco prático.

Isto posto, neste artigo trago uma proposta de pareamento entre a escala brasileira e a Sheldon. Veja que não estou propondo uma escala nova. É simplesmente uma união entre os dois métodos. Antes de começar, devemos nos fazer algumas perguntas:

Por que não utilizar diretamente a escala Sheldon, uma vez que ela é aceita e reconhecida em todo o mundo dentro dos mercados de colecionismo de moedas?

Bem, na minha opinião, não há razão para não utilizá-la. No entanto, aqui no Brasil há uma enorme resistência em fazê-lo, a começar pela dificuldade com a língua. Além disso, muitos que se propõem colecionar moedas não estão dispostos a aprender a qualificar adequadamente o estado de conservação de uma peça, de forma que, quanto mais subjetiva for a classificação, melhor. Na maioria das vezes a intenção é simplesmente ganhar dinheiro, infelizmente;

Tudo bem, mas e por que redefinir a escala brasileira de acordo com a Sheldon?

E eu pergunto, por que não? A escala Sheldon possui descrições muito detalhadas para cada um dos estados que contempla. Além do mais, elas já foram exaustivamente discutidas e testadas por milhares de colecionadores e negociantes, é utilizada pelas certificadoras oficiais e pelas grandes casas de leilões. Então, por que raios não utilizá-la!?;

Se já temos a proposta da Bentes com a introdução de uma régua numérica, por que não utilizá-la?

A proposta da Bentes é muito boa, mas carece enormemente de definições mais específicas. Por mais que o grande estado esteja razoavelmente bem definido, as subdivisões não o são. Seria muito interessante termos uma escala numérica padrão, que nos fornece uma ferramente poderosa para outras matérias, como por exemplo, a precificação. No entanto, é carente de definições específicas para cada grau numérico.



Adaptando a escala brasileira

Para fazer isso, utilizarei as tabelas de equivalência entre a escala brasileira e a Sheldon apresentadas em dois dos mais reconhecidos catálogos de moedas brasileiras: o Moedas Brasileiras: Livro Oficial [1] e o Livro das Moedas do Brasil [2]. Nos dois materiais, a equivalência entre as escalas é a seguinte:

NOTA: Para iniciarmos esta atividade, precisamos fazer uma consideração importante: os termos VF/EF ou F/VF não são reconhecidos pela ANA, embora a ICG os utilize [5]. Ou é um grupo, ou outro. No máximo, o que pode ocorrer é, como fazia a ANACS, colocar a graduação das duas faces da moeda separadamente, como por ex. VF35/EF40, simbolizando que uma face é VF35 e a outra é EF40. No entanto, esta prática deixou de ser utilizada no início dos anos 90 e, atualmente, é comum a atribuição do EC global da peça pelo seu pior lado, que, no caso deste exemplo, seria VF35 (em geral não é tão linear assim. Veja no artigo Determinando a graduação do EC de moedas sem circulação na escala Sheldon uma discussão mais detalhada sobre este assunto). Portanto, vamos simplificar a nossa tabela:

Também suprimirei as barras nas siglas brasileiras, de forma que S/FC → SFC e R/BC → RBC. Além disso, utilizarei a sigla RG para denominar o estado Regular (no lugar de R) para evitar confusão com as denominações de raridade (veja o artigo Das definições de raridade e escassez para uma discussão mais detalhada). Estas alterações não mudam em absolutamente nada a forma como vemos cada classe. Repare que a nossa classe UTG, por definição, engloba 3 classes distintas da escala Sheldon: a AG3, FR2 e P1. Não criaremos nenhuma nova sigla, para tal, adotando simplesmente a numeração da escala Sheldon e acoplando-a à sigla UTG. As últimas duas adaptações serão quanto a utilização da sigla para Flor de Cunho (FDC) e Soberba (SOB), que são alterações meramente estéticas, não afetando a graduação. Portanto, temos:

Agora, vamos adotar o valor numérico de cada classe da escala Sheldon no seu equivalente brasileiro, de forma que temos, para cada grau da escala brasileira, um equivalente na Sheldon. Desta forma, comparando com as definições das condições da moeda na escala Sheldon, temos uma descrição muito mais precisa para a escala brasileira. NOTA: As descrições correspondentes a cada grau da escala Sheldon foram obtidas do livro The Official ANA Grading Standards for US Coins [3].

Sheldon

Brasileira

Descrição

P1

UTG1

Boa o suficiente para identificar a moeda. A data pode estar bastante gasta, com um dos lados completamente liso. Moedas muito corroídas entram nesta categoria.

FR2

UTG2

A maior parte dos detalhes estão completamente lisos. Alguns detalhes da legenda e data são visíveis. Pode ter sérias batidas e danos.

AG3

UTG3

Desgaste pesado, com porções de letras, legenda e data lisas. A data precisa ser legível, embora com dificuldade. Rebordo quase liso.

G4

RG4

Desgaste pesado. Desenhos maiores ainda estão visíveis, mas com áreas lisas. A efígie deve estar visível de forma geral, embora sem detalhes centrais. O rebordo pode ser parcialmente incompleto.

G6

RG6

Desgaste pesado, mas com detalhes melhor preservados e sem grandes pontos de corrosão. O rebordo apresenta desgaste geral, mas permanece completando todo o contorno da moeda.

VG8

RBC8

Bastante desgaste. Elementos maiores do desenho são visíveis, mas com áreas fracas. A efígie deve ser visível de modo geral, sem os detalhes centrais. Letras menores que compõem o desenho praticamente não aparecem.

VG10

RBC10

Apresenta desgaste em toda a moeda. Partes do rebordo podem estar mais gastas que outras, mas continuam identificáveis. Algumas das letras de palavras menores no desenho são visíveis.

F12

BC12

Desgaste considerável a moderado. Todo o desenho está parcialmente apagado. Apresenta pelo menos parte de todas as palavras que compõem legendas e desenhos.

F15

BC15

Desgaste moderado em toda a superfície. Todas as partes do desenho estão visíveis, embora bastante apagadas ou planas.

VF20

MBC20

Desgaste moderado nas áreas altas do desenho. Detalhes menores estão começando a ficarem lisos. As superfícies são atrativas e livres de grandes pontos de corrosão ou grandes batidas ou arranhões.

VF25

MBC25

Toda a superfície mostra sinais de desgaste moderado, com alisamento de alguns elementos do design. Partes mais proeminentes do desenho mantêm-se fortes e claras. Alguns dos detalhes menores não aparecem mais.

VF30

MBC30

Desgaste leve a moderado nas partes altas, com os detalhes menores do desenho começando a ficarem planos. No entanto, todas as legendas e letras aparecem claramente.

VF35

MBC35

A superfície apresenta leve desgaste em todo o desenho. Pode ter uma ou duas pancadas no rebordo. Todos os detalhes do desenho são visíveis.

EF40

SOB40

Apresenta apenas leve desgaste sobre todo o campo, com nitidez nos componentes do desenho. Traços do brilho de cunho podem ser visíveis. Todos os detalhes do desenho são claramente visíveis.

EF45

SOB45

Leve desgaste geral é visto nos pontos mais altos da moeda. Todos os detalhes são completos e muito nítidos de modo geral. Algum brilho de cunho pode ser visível em áreas protegidas da moeda.

AU50

SFC50

Mínimo desgaste é visto na maioria dos pontos altos da moeda. Todos os detalhes são nítidos. Pode possuir poucas marcas de contato mais pronunciadas. A maioria destas moedas possui traços do brilho do cunho. Moedas de cobre geralmente são completamente escuras.

AU53

SFC53

Marcas de circulação perceptíveis em vários dos pontos altos. Poucas marcas de contato, geralmente com bom apelo visual. Brilho de cunho inexistente ou parcialmente visível.

AU55

SFC55

Somente pequenos traços de circulação perceptíveis nos pontos mais altos do desenho. Geralmente apresenta até três quartos do brilho de cunho. Apelo visual é muito bom.

AU58

SFC58

Apenas mínimos sinais de circulação são visíveis em um ou mais pontos mais altos do desenho. Nenhuma marca de contato maior está presente, com apelo visual excelente e com praticamente todo o brilho do cunho.

MS60

FDC60

A moeda apresenta aspecto desagradável, opaco, com brilho de cunho apagado. Pode apresentar muitas marcas de impacto grandes, ou ponto de danos, mas sem nenhum desgaste ou sinal de circulação. Pode ter uma grande concentração de hairlines* ou riscos/arranhões. O aro pode apresentar marcas de pancadas e a aparência visual pode não ser muito agradável. Moedas de cobre podem ser escuras, desbotadas e manchadas.

MS61

FDC61

O brilho de cunho pode estar diminuído ou visivelmente manchado e a superfície pode apresentar núcleos de pequenas marcas de contato. Hairlines podem ser bem aparentes. Arranhões podem estar presentes em áreas e partes maiores do desenho. O aro pode ter pequenas marcas de pancadas e defeitos no disco podem ser vistos, com a qualidade perceptivelmente baixa. A aparência não é atrativa. Peças de cobre são geralmente desbotadas, escuras e, possivelmente, manchadas.

MS62

FDC62

Brilho de cunho inomogêneo e fosco pode ser evidente. Núcleos de pequenas marcas podem estar presentes através da superfície, com poucas marcas maiores em regiões focais da moeda. Grandes arranhões pouco atrativos podem ser vistos nas características maiores. A qualidade da batida, do aro e do disco podem ser abaixo da qualidade média. O apelo visual é aceitável. Moedas de cobre podem apresentar tom e brilho diminuídos.

MS63

FDC63

Brilho do cunho pode ser levemente não homogêneo. Podem ser vistas numerosas pequenas marcas de contato e umas poucas maiores, espalhadas pela superfície. Pequenas marcas de hairlines podem ser visíveis sem lupa. Vários riscos ou defeitos não atrativos podem ser vistos com ampliação de 4x. Riscos ou defeitos leves podem ser vistos no design ou no campo. Qualidade sobretudo atrativa, com apelo visual agradável. Moedas de cobre podem estar levemente foscas.

MS64

FDC64

Moeda tem brilho e cunho medianos para o tipo. Várias marcas de contato agrupadas, bem como uma ou duas maiores podem estar presentes. Uma ou duas hairlines podem ser visíveis com aumento de 4x. Aparentes e leves riscos podem estar presentes no campo ou nos pontos mais altos do desenho. Qualidade sobretudo atrativa e apelo visual agradável. Moedas de cobre podem estar levemente foscas.

MS65

FDC65

A moeda deve mostrar brilho e batida de alta qualidade para a data em que foi feita. Poucas e pequenas marcas de contato podem estar espalhadas ou duas maiores podem ser encontradas. Uma ou duas hairlines menores podem ser vistas sob ampliação de 7x. Leves riscos podem ser notados nos pontos altos da moeda. Qualidade é, sobretudo, acima da média, com apelo visual muito agradável. Moedas de cobre mantém totalmente o brilho de cunho original ou cor escurecida de forma homogênea.

MS66

FDC66

A moeda está acima da qualidade média de cunho e brilho, com não mais que três ou quatro marcas de contato notáveis. Poucas hairlines podem ser notadas sob ampliação de 7x, ou podem haver um ou dois riscos leves nas partes altas da moeda. O apelo visual deve ser acima da média e muito agradável. Moedas de cobre mantém todo seu brilho original do cunho ou coloração muito atraente, homogênea e agradável ao olhar.

MS67

FDC67

Pode ter três ou quatro marcas de contato minúsculas ou uma mais notável, porém não depreciativa. Em moedas deste tipo, uma ou duas pequenas hairlines podem ser visíveis sob ampliação de 7x, ou um ou dois pequenos riscos ou falhas parcialmente escondidos podem estar presentes. Apelo visual é acima da média. Moedas de cobre tem cor original lustrosa e brilho de cunho quase completo, podendo estar levemente escurecido de forma homogênea e com aspecto agradável.

MS68

FDC68

A moeda deve manter totalmente seu brilho de cunho, com não mais que quatro pequenas marcas de contato ou falhas espalhadas. Nenhum risco ou hairline é visível. Moedas de cobre tem cor original lustrosa. O apelo visual é excepcional.

MS69

FDC69

A moeda apresenta brilho e cunho originais completos, com não mais que duas marcas ou falhas não depreciativas. Nenhuma hairline ou risco é visível. O apelo visual é excepcional.

MS70

FDC70

A moeda perfeita, com cunho perfeito, material perfeito, sem falhas ou qualquer tipo de marca, mesmo sob ampliação. Moedas deste tipo são praticamente inexistentes em moedas mais velhas, com poucos exemplares conhecidos. Moedas de cobre são brilhantes com lustro e cor original completos. O apelo visual é excepcional e estonteante.

Hairlines: são marcas semelhantes a linhas sobre a superfície da moeda. Elas podem se apresentar devido à fricção com qualquer outro material (seja o envelope, tecido, etc.). Estas marcas também SEMPRE estarão presentes em moedas que foram limpas de alguma maneira utilizando fricção (tecido, algodão, borracha, etc.). Nestes casos, são causadas por minúsculas partículas de poeira, ou mesmo os pequenos cristais dos cremes de polimento, que causam um agrupamento de linhas na direção em que houve a fricção.

Destarte, temos uma escala Sheldon “abrasileirada” (brasileira-Sheldon), com as definições da escala internacional utilizando os nomes dos grupos que são comuns aqui no Brasil. A diferença fundamental é que cada grupo pode ser muito bem definido através da descrição da escala Sheldon.



Diagramas de graduação na escala brasileira adaptada

Criamos então dois fluxogramas para que você possa em sua casa classificar suas moedas quanto o estado de conservação, trata-se de um mapa, com inicio e fim, extremamente detalhado e sim de utilizar, usando apenas perguntas simples, com respostas de sim ou não, sendo o resultado o estado de conservação de sua moeda. Estamos preparando ainda um material em alta definição para impressão, para você possa ter esse mapa em casa.

FLUXOGRAMA DE GRADUAÇÃO DO ESTADO DE CONSERVAÇÃO PARA MOEDAS CIRCULADAS

Podemos observar a legenda das siglas logo no começo do texto, mas para que fique simples, teremos SFC para Soberba/Flor de Cunho, SOB para Soberba, MBC para Muito Bem Conservada, BC para Bem conservada, RBC para Regular/Bem Conservada, R para regular e UTG para Um Tanto Gasta.

Você poderá usar também essa versão em PDF para facilitar a impressão, aconselhamos a divisão em duas folhas A4 para melhor visualização, você pode ficar tranquilo que imagem não perderá qualidade:  Escala BRSheldon – Circulada.

FLUXOGRAMA DE GRADUAÇÃO DO ESTADO DE CONSERVAÇÃO PARA MOEDAS NÃO CIRCULADAS

Para que fique totalmente claro, MS ou Mint State refere-se ao estado de conservação em que a moeda encontra-se ao sair da casa de cunhagem e Áreas Frosty são regiões , especialmente as baixas e planas, que ficam com aparência similar à neve fresca devido ao impacto e pressão no momento da cunhagem.

Você poderá usar também essa versão em PDF para facilitar a impressão, aconselhamos a divisão em duas folhas A4 para melhor visualização, você pode ficar tranquilo que imagem não perderá qualidade: Escala BRSheldon – Não Circulada.

 

Quanto ao estado Discreto

No artigo Qualidade das moedas – Um estudo dos graus de conservação [4], a Bentes também propôs a introdução de um sétimo estado de conservação, ao qual chamou de “Discreto”, que, na própria definição deles, seria seria “um estado de conservação pouco acima do medíocre [UTG]…”. Não estou utilizando este estado por dois motivo: Primeiro e mais importante: esta classe consta no artigo do blog, mas não no próprio livro da Bentes [2], de forma que, aparentemente, eles mesmos não fornecem credibilidade ao seu próprio trabalho; Segundo, não encontrei necessidade, uma vez que o UTG1, UTG2 e UTG3 resultantes do pareamento com a Sheldon, são capazes de atender a necessidade melhor que o estado “Discreto”.

Do uso do FDCe

No mesmo artigo [4], a Bentes introduz o grau Flor de Cunho Excepcional (FDCe), que também está presente na descrição dos estados de conservação da literatura oficial [2]. Não estou utilizando este termo por três motivos:

1 – Não há necessidade, uma vez que a escala Sheldon e a brasileira adaptada cobrem todos os espaços de qualidade, não havendo necessidade para uma nova nomenclatura, o que, evidentemente, não impede que ela seja utilizada;

2 – A definição de FDCe é extremamente confusa. No artigo[4], é definida como moedas MS70 na escala Sheldon. Na literatura oficial[2], na página 48, definem como sendo todas as moedas com EC igual ou superior ao MS67. Agora, pasmem: na página 14 do mesmo livro[2], quando apresentam o novo grau de conservação, dizem que FDCe equivale a todas as moedas com EC igual ou superior a MS65. Portanto, mesmo que no artigo e na apresentação esteja errado e que o correto seja a da página 48, o uso desta terminologia tem um grande déficit de confiança;

3 – Para mim (opinião pessoal, cuidado!), é completamente desnecessária, embora possa ser utilizada para ilustrar uma moeda com apelo visual excepcional.



Da utilização dos símbolos “★” e “+” pelas certificadoras oficiais

Ainda que a ANA não disserte recomendação alguma sobre o assunto, as duas maiores certificadoras dos EUA utilizam de símbolos para denominarem uma gama bem específica de peças dentro de um determinado grau.

O sinal de adição (+): Tanto a NGC[6], quanto a PCGS[7] e a ICG[5], utilizam o sinal de adição “+” (apenas um! Não saem colocando ++++ nos slabs!) para denominarem o EC de uma moeda que esteja no topo do seu grau. Por exemplo, uma moeda graduada como MS64+ significa que é uma MS64, mas as condições que apresenta deixam-na muito próxima da MS65. Assim, é utilizado o “plus”. E a atribuição do plus é bastante rigorosa. As três agências (NGC, PCGS e ICG) são unânimes quando falam sobre: somente entre 15% e 20% das moedas de um determinado grau receberá o sinal +, significando que está entre os 30% que compõem o topo do nível.

Além disso, nem todas as classes de EC recebem este sinal. Somente moedas graduadas entre XF45 e MS68 (excluídas MS60 e MS61) podem receber o plus, significando uma peça superior para o seu estado.

Do uso da estrela (★): A estrela é utilizada apenas pela NGC como uma característica própria. A estrela é adicionada ao EC de uma moeda quando ela possui um apelo visual muito superior à média para determinado grau. Por exemplo, uma MS64★ é graduada como MS64 dentro dos critérios da escala Sheldon, mas possui um apelo visual muito acima do esperado para moedas MS64, mostrando todo o brilho de cunho ou uma coloração fabulosa. Neste caso, a utilização da estrela cumpre a tarefa de “premiar” a aparência espetacular.

 

Da adoção da escala BRSheldon

A utilização da escala de graduação brasileira-Sheldon ou brasileira adaptada pode introduzir uma nova maneira de se atribuir graus de EC para moedas e (espero fortemente) pode acabar com os absurdos do tipo SOB++++++ (como se a colocação de mais de um sinal de adição significasse alguma coisa!). No entanto, não sou tão otimista do uso em grande escala dela, uma vez que a tradicional é muito mais fácil de usar e não necessita muito estudo. E é justamente aí que reside o maior problema. A maioria das pessoas não se dará ao trabalho de ler as descrições para cada grau, muito menos de pensar e de fato aplicar para qualquer peça que possua. As pessoas não querem ler e não há quase nada que as estimule a fazê-lo. A grande maioria dos que acessarão este artigo, por seleção, será composta por aqueles que já procuram melhorar seu acervo de informações. E justamente estes não têm (ou quase não têm) nenhum problema em utilizarem a escala Sheldon, de forma que a escala adaptada é quase inútil. Quanto aos demais, se alguém acessar o artigo, não passará das primeiras frases, não lerá as descrições das classes e sequer chegará até esta parte do texto, pois este tipo de conteúdo não interessa! Por que então me dei ao trabalho de fazê-lo? Digo-lhes: pelos poucos que lerão até aqui, já valeu o esforço!

Bons estudos!

 

Referências

[1] Livro das Moedas do Brasil – 14ª Edição – 1643 até 2015, Autor: Amato, Claudio; Neves, Irlei S.; Russo, Arnaldo.

[2] Moedas Brasileiras – Livro Oficial – 5ª Edição – Autor: Rodrigo Maldonado, 2016.

[3] The Official American Numismatic Association Granding Standards for US Coins – 7ª Edição – Editado por Kenneth Bressett, Narrativa de Q. David Bowers.

[4] Qualidade das moedas – Um estudo dos graus de conservação

[5] ICG: How we grade

[6] NGC Coin Grading Scale

[7] Two Leading Grading Services Announce “Plus” Grading

[8] PCGS Currency: Numerical Grading Scale




Fábio Herpich

Fábio é formado em Física com doutorado em Astrofísica pela UFSC. Entusiasta da numismática, tem enfoque nos estudos técnicos da graduação de moedas pela escala Sheldon, bem como as implicações relativas às propriedades dos metais sobre a aparência e conservação de moedas. É sócio da Associação de Filateilia e Numismática de Santa Catarina (AFSC) e da American Numismatic Association (ANA).

3 comentários

Rubens Bulad · 6 de dezembro de 2017 às 21:29

Este estudo é maravilhoso, uma verdadeira mão na roda e faz-se altamente necessário na numismática brasileira, para que melhores peças venham até as nossas coleções e para que elevemos o nível de estudos numismáticos de nossos amigos colecionadores, equiparando-nos ao nível americano e europeu, dos quais atualmente estamos a anos-luz de distância
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Ao utilizar a Escala Sheldon, o numismata passa a verificar cada moeda com muito mais acuidade em detalhes do que utilizando a fajuta escala brasileira, que só existe aqui e nos países ibéricos (Espanha e Portugal), e que é altamente subjetiva e dá margens a muitas interpretações de acordo com a ocasião (compra ou venda). São comuns os relatos de aquisição de moedas “FC” no comércio numismático nacional, que quando chegam às mãos do colecionador, estão sem brilho de cunho, foram polidas, limpas com ácido, com danos causados por PVC, e até mesmo manchadas ou corroídas por má armazenagem. Outros, compram no exterior moedas encapsuladas com a etiqueta “cleaned/UNC Details”, quebram os slabs e as tentam empurrar aos amigos como sendo ”flor de cunho” ou ”soberba”. Isto tem que acabar, e por isso sou totalmente a favor da utilização da Sheldon no Brasil.
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O responsável principal pela adoção oficial desta escala é a Sociedade Numismática Brasileira, no entanto vários de seus diretores são eles próprios comerciantes, e alguns deles limpam moedas com escovas de latão e ácido, e nas reuniões e leilões, tocam nas peças com as mãos nuas e suadas, tal como era feito há décadas atrás. Portanto, enquanto não houver uma grande renovação nas coisas, continuaremos parados no tempo.
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Como vamos mudar isto? Quando os numismatas brasileiros passarem a utilizar a Escala Sheldon em suas próprias coleções, será uma mera questão de tempo para que esta escala seja adotada no país e será o fim das enganações e maquiagens de moedas para parecerem ter um estado de conservação que não possuem.

Klaus Stender · 10 de abril de 2019 às 19:49

Estou iniciando (voltando) na numismática e achei o artigo muito esclarecedor. Confesso que realmente não li todas as descrições das classes, visto que no meu atual nível de conhecimento, não vou gravar as informações.

E como você mesmo previu, por ter alguma prática na língua inglesa, certamente utilizarei a Escala Sheldon.

Mas o artigo foi muito útil.

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