Primeiro, vamos determinar o que é ANVERSO e o que é REVERSO nas moedas.

O ANVERSO é o lado principal das moedas. Na maioria das moedas do mundo, consta a cabeça (efígie) do monarca reinante, ou uma efígie iconográfica que simboliza a personificação de um regime republicano. Então segue-se a lógica de que a efígie não pode estar de cabeça pra baixo. Não constando uma efígie, o anverso será onde consta a informação de maior importância, ou seja, o nome do País emissor. O REVERSO será, logicamente, o outro lado, de menor importância.

Uma das características de todas as moedas é a sua ORIENTAÇÃO ou ALINHAMENTO, cujo design do anverso possui sentido inverso ou alinhado de maneira específica em relação ao reverso. Basicamente existem duas opções:

ORIENTAÇÃO MEDALHA: O nome deriva da orientação das medalhas de uniforme militar. O reverso está alinhado a 0º em relação ao anverso, de forma que compartilham a mesma posição ao girar a moeda em seu eixo vertical. A maioria das moedas antigas do Brasil são cunhadas com esta orientação.

ORIENTAÇÃO MOEDA: É a situação oposta. O reverso está alinhado a 180º em relação ao anverso, de forma que fica “de cabeça pra baixo” ao ser girada a moeda em seu eixo vertical. As moedas atuais do Brasil (Plano Real) são cunhadas com essa orientação.

Por erro de produção, pode acontecer de algum dos lados da moeda estar orientado em posições diferentes, em diversos graus de inclinação, e a isto denomina-se, mundialmente, por todas as sociedades numismáticas SÉRIAS, de anomalia de ROTAÇÃO DE CUNHO, comumente chamado no Brasil, por leigos, de “Reverso Invertido”, “Reverso Inclinado”, inclusive em catálogos e publicações que doravante pretendem apresentar seriedade.



Somente para este assunto, ROTAÇÃO DE CUNHO, poderia-se escrever um livro inteiro. Há muito mais a ser dito e explicado, há de se detalhar quais falhas ocorrem durante a cunhagem que causam a rotação dos cunhos, ilustrá-las, e este texto é apenas um pequeno esboço, somente pros amigos terem uma idéia de como as coisas realmente funcionam, e cuja nomenclatura aqui no Brasil foi simplesmente INVENTADA pela cabeça de comerciantes brasileiros que, não compreendendo suas causas, passaram a nomear de cabeça própria aquilo que observavam, às vezes com nomes esdrúxulos, e que é perpetuada até hoje, por pura ignorância, por catálogos, inclusive por aqueles que se dispõem a “revisar cada detalhe”, como o Bentes.

Ou seja, nossos nobres amigos editores numismáticos, (inclusive o Bentes, que se autoproclama uma “sumidade” no assunto), estão catalogando erros tais como rotação de cunho e até mesmo cunho marcado em seus catálogos, que são duas anomalias relativamente insignificantes. Ou se cataloga as realmente importantes, como as “mules” ou “híbridas”, ou não se cataloga nenhuma. Na verdade, o ideal seria não catalogar as anomalias, e sim as VARIANTES DE CUNHO. Quanto às anomalias, ou podem ser catalogadas em uma obra à parte, ou como meras variedades da peça, tal como fazem os editores filatélicos.

Mas… Qual o correto? Reverso invertido/inclinado ou será que é Anverso invertido/inclinado?

Resposta: Ambos estão errados!

Não é o reverso ou o anverso do disco da moeda que girou durante a cunhagem, e sim o cunho.(Afinal, isto é óbvio, o disco da moeda vai girar como, se está sendo prensado por dois cunhos exercendo dezenas de toneladas de pressão?).

A anomalia de ROTAÇÃO DE CUNHO pode ocorrer de duas formas: Na primeira, erro humano, (proposital ou não) com a instalação, na máquina de cunhagem, de um dos cunhos em posição invertida (e aí teremos moedas com exatamente 180º de rotação), e são as que chamamos erroneamente no Brasil de “reverso invertido”, e na segunda, uma falha de produção sem intervenção humana no qual ocorre de um dos cunhos (quase sempre o cunho móvel) começar a ficar frouxo na máquina de cunhagem, após muitas milhares de batidas em moedas. E aí começam a aparecer moedas cada vez mais inclinadas, em vários graus. São as que chamamos “reverso inclinado”, “reverso horizontal”, dentre outros nomes.

Por isso, mais correto é o termo “Rotação de Cunho”, pois, apesar de quase sempre o cunho móvel ser o responsável pela rotação, em alguns casos o cunho fixo também pode girar. Nas atuais moedas brasileiras de 1 Real, sabemos que a face com a Efígie da República (anverso) é o cunho móvel (martelo), então podemos associar na maioria das vezes que é este o cunho que rotaciona em seu eixo, (daí teríamos o “ANVERSO invertido/inclinado”), mas em alguns casos é o cunho fixo, com o valor facial, que irá rotacionar.

Como não podemos determinar para cada moeda cunhada no mundo qual era seu cunho fixo e qual era o móvel, e muito menos qual deles rotacionou em seu próprio eixo, e sabendo que existem máquinas onde ambos os cunhos são móveis, e também que existem outras formas de cunhagem (à balancim, manual, à martelo, à vapor, etc), então é dispendioso (e até impossível) determinar qual dos cunhos foi rotacionado. Pode inclusive ter sido ambos ao mesmo tempo!  Assim sendo, na hora da catalogação, não importará muito qual lado seja registrado como inclinado em relação ao outro.

As empresas certificadoras de moedas, tais como PCGS e NGC encapsulam e identificam moedas comuns com a anomalia “ROTADED-DIES” ou “MEDALLIC ALIGNMENT” (vide imagens abaixo), porém, Faz-se mister observar que esta é uma anomalia de baixo nível, ou seja, extremamente comum, fácil de conseguir nos trocos, encontrável nos “kilowares”, fácil de conseguir com os comerciantes, e que agrega pouco valor às coleções. Na verdade, é mais como que uma curiosidade, e como dissemos acima, sequer deveria constar em catálogos. É assim que funciona nos grandes centros numismáticos mundiais.

Portanto, dizer “invertido”, “horizontal à direita” ou “horizontal à esquerda” também está equivocado, e inclusive confunde a muitos! Tornam complicado aquilo que é fácil e óbvio. O correto é indicar quantos graus há de inclinação. A 180º temos o que se chama erroneamente de “reverso invertido”. Números diferentes disto, são os “reversos inclinados”, “horizontais”, e outros nomes que inventam por aí.

Numismatas sérios de todo o mundo consideram como “colecionáveis” (peças boas) aquelas que possuem mais de 30º de inclinação.

Pra determinar exatamente o grau de rotação de uma moeda “inclinada” ou “horizontal”, use um simples Transferidor de Ângulos em Graus, destes facilmente encontráveis em papelarias.

Para utilizar o Transferidor, toma-se um dos lados como base (por mera convenção o reverso, por este lado ser geralmente o cunho fixo), e verifica-se quantos graus há de deslocamento no ANVERSO (cunho móvel). Simples, porém eficaz. No envelope da moeda, ou holder, anota-se“Rotação de Cunho em XXº”. (sendo “XX” o número de graus alcançado pelo Transferidor).

Quanto a valores de mercado das peças, desenhei (amadoramente, mas compreensível) a seguinte ilustração abaixo.

Representado em VERMELHO: Entre 330º e 359º, e 1º a 30º, as peças não são consideradas como Rotação de Cunho, e sim um mero desalinhamento comum, e não devem ser consideradas para coleção (Possuem Rotação de Cunho abaixo de 30º).

Representado em AMARELO: Entre 31º e 169º, e 191º e 329º, (exceto 90º e 270º) são as peças de Rotação de Cunho comuns e de segunda escolha pra uma coleção séria (são as que chamam genericamente de “reverso inclinado”).

Representado em AZUL: Entre 170º e 190º, e também 90º e 270º: São as melhores e mais valiosas peças de Rotação de Cunho (são as que chamam genericamente de “reverso invertido”, e “reverso horizontal à direita/esquerda”).

Simplificando: Procure as peças AZUIS pra coleção. Leve sempre em consideração também o Estado de Conservação.

Como mensurar os graus:

Pra facilitar, coloque a moeda em um envelope plástico transparente, ou coin holder, de forma que um dos lados (anverso ou reverso, não importa) esteja perfeitamente alinhado a 0º em seu eixo horizontal, conforme a imagem abaixo. Faça um traço perfeitamente horizontal no envelope ou holder indicando a medida de 0º.

Feito isso, em seguida, vire cuidadosamente a moeda em seu eixo vertical (de forma que o lado pra baixo continue alinhado a 0º), tome o Transferidor de`Ângulos em Graus, coloque a peça em seu centro, e, com o auxílio de uma régua, determine quantos graus há de inclinação com relação ao outro lado da moeda. Ilustro abaixo alguns exemplos:

Moeda com Rotação de Cunho à 10º.
Peça VERMELHA. Abaixo dos 30º, é considerado como um mero desalinhamento corriqueiro,
e não deve ser considerado para a coleção. Descarte.

Moeda com Rotação de Cunho à 30º.
Peça AMARELA. A partir deste grau de rotação, a peça passa a ser colecionável.

Moeda com Rotação de Cunho à 90º.
Peça AZUL. Esta é a que chamam equivocadamente de “reverso horizontal à direita”

Moeda com Rotação de Cunho à 120º.
Peça AMARELA

Moeda com Rotação de Cunho à 180º.
Peça AZUL. Esta é a que denominam equivocadamente de “Reverso Invertido”

 


Moeda com Rotação de Cunho à 220º.
Peça AMARELA

 

Moeda com Rotação de Cunho à 270º.
Peça AZUL. Esta é a que chamam equivocadamente de “reverso horizontal à Esquerda

 

Moeda com Rotação de Cunho à 330º.
Peça AMARELA. O último grau colecionável. Acima disso, de 331º a 360º, deve ser descartado (inclinação menor que 30º em relação ao alinhamento-padrão de 0º).

Espero que este pequeno artigo tenha sido redigido de forma a que todos compreendam de forma definitiva quais são as peças colecionáveis da anomalia ROTAÇÃO DE CUNHO. Em caso de dúvidas, a caixa de comentários está logo aí abaixo, não hesite em perguntar.




Rubens Bulad

Graduado em História com mestrado em História da Arte pela UFG. Ex-Presidente do Clube Filatélico de Mato Grosso - CLUFIMAT, de Cuiabá-MT e Secretário-Geral do CECOF - Clube Filatélico-Esperantista de Correspondência e Colecionismo, de Goiânia-GO. Filatelista desde 1994, colecionando selos postais de todo o mundo, e Numismata desde 2012, colecionando moedas do Brasil e da Ucrânia. Historiador, Pesquisador e Tradutor, atualmente membro da American Numismatic Society (ANS).

8 comentários

Yuri · 15 de janeiro de 2018 às 14:23

Parabéns. Material como este é que melhora a numismática e o mercado que permeia o meio.

    André Luiz Padilha · 15 de janeiro de 2018 às 14:54

    Obrigado pelo comentário Yuri, esperamos que volte sempre aqui. São pequenas atitudes como essa que nos motivam a continuar.

Cristiano · 15 de janeiro de 2018 às 16:24

Simplesmente fantástica as explicações, é muito bom a divulgação dos conteúdos que vocês fazem, são assuntos muita importância para o meio Numismático. Meus parabéns!!!

Marco Antônio Reuse · 19 de janeiro de 2018 às 12:30

Excelente trabalho, esclareceu algumas questões, mas fiquei com algumas dúvidas.
Sei que é um assunto bem complexo e tem que ser bem estudado. Como é difícil estabelecer qual dos cunhos girou, acredito que o Anverso da moeda, que é a face principal, deve ser tomada como referência.
Tenho pesquisado muito sobre Anomalias em várias fontes e é um assunto muito interessante.
Gostaria de manter contato para outros esclarecimentos e aprendizado sobre o assunto. Grato pela atenção. Abraços.

    André Luiz Padilha · 19 de janeiro de 2018 às 13:19

    Obrigado pelo comentário Marco!
    Como foi dito no texto, aqui na Casa da Moeda do Brasil temos um sistema de cunhagem onde há um cunho fixo e outro móvel, ou seja, um “bate” e o outro é “batido”, então por isso, é muito mais fácil que o cunho móvel gire no momento da cunhagem, contudo, é bem mais difícil, mas o cunho fixo também pode sofrer um desalinhamento depois de várias centenas de moedas cunhadas por hora.
    Concordo com você, é muito difícil no final conseguir concluir qual dois cunhos girou, mas sim, é um estudo muito complexo e interessante, e aqui é compartilhado principalmente para que as pessoas comecem a entender sobre o processo de fabricação das moedas no Brasil para que cessem essa grande quantidade de “variantes” que pessoas sem preparo e conhecimento criam e supervalorizam.
    Fique a vontade para compartilhar conosco suas dúvidas, ficaremos felizes em responde-las.

Marco Antônio Reuse · 19 de janeiro de 2018 às 19:06

Agradeço as explicações. Também considero exagerado o número de variantes incluídas na maioria de nossos catálogos. Além de confundir simples anomalias com variantes. Toda Variante é anômala, mas nem toda Anômala é Variante.

Noberto Lopes.. · 31 de janeiro de 2018 às 22:40

Artigo excelente.. parabéns Rubens pela dedicação e pelo magnífico trabalho faz, nos oferecendo informado é assim conhecimento. Parabéns André, pela divulgação e dedicação pela numismática.. abraço

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