Do Gabinete Numismático do Palácio da Ajuda ao Museu Numismático Português

A coleção de moedas que integra o acervo do Museu Casa da Moeda, atualmente em depósito no edifício sede da Imprensa Nacional Casa da Moeda, em Lisboa, é formada por um conjunto de peças representativas de diferentes contextos históricos, do século VII/VI a.C. ao século XXI. Entre estas destaca-se, pela sua importância, o núcleo de moedas datável da época islâmica, de que fazem parte várias dezenas de peças batidas em ouro, prata e cobre pelas principais dinastias que governaram al-Andalus entre os séculos VIII e XV.

A parte mais significativa deste núcleo de moedas começou a constituir-se e a organizar-se nas últimas décadas do século XIX, época coincidente com o reinado de D. Luís, monarca que se dedicou com especial afinco à prática do colecionismo numismático e criou o Gabinete Numismático do Palácio da Ajuda. Após a morte deste rei, a coleção transitou para a posse de D. Carlos, primeiro, e de D. Manuel II, depois. Com a implantação da república, a 5 de outubro de 1910, e o consequente encerramento do Palácio da Ajuda, a coleção de moedas passou a estar em situação de arrolamento sob a dependência de um funcionário superior da Direção Geral da Fazenda Pública.



Na sequência da alteração do estatuto do Palácio da Ajuda, a coleção do Gabinete Numismático foi transferida para a Casa da Moeda, na rua de São Paulo, ao abrigo do decreto n.º 9730, de 26 de maio, com a justificação de se tratar de um edifício de localização central e maior segurança, no qual veio a formar um conjunto especial. A inauguração do Museu Numismático Português por Manuel Teixeira Gomes, a 14 de junho de 1924, fez com que a coleção regressasse à fruição pública e despertasse a atenção de alguns eminentes nomes da numismática portuguesa. A criação do lugar de conservador do Museu Numismático Português, ao abrigo do decreto n.º 21448, de 4 de julho, e a nomeação de Pedro Batalha Reis para ocupar este lugar foram passos decisivos na consolidação do museu e na divulgação do acervo nele patente.

Por diligência de Pedro Batalha Reis, o Museu Numismático Português foi criado como museu nacional em 1933, ao abrigo do decreto n.º 22682, de 14 de junho, incorporando, nesta data, quatro núcleos principais: a coleção de D. Luís, a coleção da Casa da Moeda, parte do Gabinete Numismático da Biblioteca Nacional e a coleção de medalhas da Academia das Ciências. Estes núcleos começaram a ser alvo de inventário sistemático a partir de 1937, data em que Damião Peres deu início ao registo em livro do acervo do museu, identificando a Coleção D. Luís no Livro 1.º de Inventário, e o Fundo Geral no Livro 2.º de Inventário.

Entre 1938 e 1941 teve lugar o processo de transferência de todos os serviços da Casa da Moeda da rua de São Paulo para o edifício de traça modernista onde atualmente se encontra, na avenida António José de Almeida. Este processo, apenas concluído com a entrega da totalidade das moedas que haviam pertencido a D. Luís, motivou a continuação do registo de inventário das peças ainda por classificar, e que tinham sido adquiridas pelo Museu Numismático Português, no Livro 3.º de Inventário. Em 1944 o Museu Numismático passou a funcionar anexo ao novo edifício da Casa da Moeda, ao abrigo do Decreto n.º 34001, de 4 de outubro, que definiu também as suas atribuições, e, dois anos mais tarde, foi reinaugurado nas novas instalações.

Joaquim Figanier e o inventário da coleção de moedas da época islâmica

A coleção de moedas da época islâmica que tinha integrado o acervo em exposição no Palácio da Ajuda e na Casa da Moeda da rua de São Paulo passou, a partir de 1946, a estar patente na Casa da Moeda da avenida António José de Almeida. Em uma altura em que o Museu Numismático Português dispunha já do registo de inventário das peças que integravam o respetivo acervo, Joaquim Figanier (1898-1962), investigador da época árabe e islâmica, interessou-se por aquela coleção e dedicou-se ao estudo das peças em depósito na instituição. Os resultados do trabalho que este investigador desenvolveu foram apresentados ao público entre 1949 e 1959, data da publicação, com a chancela da Casa da Moeda/Museu Numismático Português, do único catálogo das moedas islâmicas editado até à data.



Este catálogo, resultante dos trabalhos de “inventariação, classificação e descrição das moedas árabes do Museu Numismático Português” diligenciados por José da Cruz Azevedo, engenheiro-administrador da Casa da Moeda, e António Bebiano, administrador da Imprensa Nacional, recebeu a designação de Moedas árabes. Inventário e descrição e foi publicado em duas partes: a primeira em 1949, com o título “Da criação do emirado espanhol à conquista de Granada” (711-1492), e a segunda em 1959, com o título “Da conquista de Granada aos nossos dias”, com um apêndice. Esta divisão pretendia ser um reflexo de circunstâncias históricas que o próprio Joaquim Figanier justificaria no prefácio do catálogo, separando, de um lado, a época da “formação e desmembramento do Império Muçulmano”, e, do outro, a dos “Estados Muçulmanos das Idades Moderna e Contemporânea”. De uma forma geral, esta obra continha um prefácio sobre a história da presença árabe, berbere e islâmica na Península Ibérica entre os séculos VIII e XV, no qual se falava também acerca da forma como se encontrava organizada a coleção de moedas da instituição, reunida na sequência da incorporação das séries pertencentes à Coleção Real ou da Ajuda e ao Fundo Geral.

Na altura em que Joaquim Figanier deu início ao inventário das moedas da época islâmica, nomeadamente das que integravam a Coleção Real ou da Ajuda, uma parte destas encontrava-se já sumariamente descrita em pequenos papéis com notas escritas em castelhano, anteriormente utilizados para acondicionar as peças do acervo. O trabalho que este investigador desenvolveu consistiu primeiramente na identificação das moedas já descritas, e, só depois, das que ainda se encontravam por descrever, as quais foram identificadas com base na consulta da obra de Antonio Vives y Escudero (1893). Para cada uma das peças circulantes na Península Ibérica entre os séculos VIII e XV, Figanier criou uma ficha-padrão que continha vários descritores numismáticos: coleção museológica, contexto histórico, denominação, centro de emissão, data, metal, anverso, reverso, observações, número de inventário. Nestas fichas, as epígrafes árabes foram transcritas e traduzidas para português. Algumas moedas mais representativas foram fotografadas e organizadas em estampas. À data da conclusão dos trabalhos de inventário da coleção islâmica, Joaquim Figanier tinha conseguido identificar, para a Coleção Real ou da Ajuda, duzentas e oitenta moedas (82,59%), e, para o Fundo Geral, cinquenta e nove (17,40%), perfazendo um total de trezentas e trinta e nove peças. A Coleção Real ou da Ajuda era constituída por vinte e sete moedas de ouro (9,64%), duzentas e vinte e sete de prata (81,07%) e vinte e seis de cobre (9,28%); o Fundo Geral, por treze moedas de ouro (22,03%) e quarenta e seis de prata (77,96%).

INCM/MCM 22990-23079: um tesouro monetário da época islâmica

Na altura em que se encontrava a ser publicado o catálogo da autoria de Joaquim Figanier, deu entrada na coleção do Museu Numismático Português um tesouro constituído por um conjunto de moedas de prata da época islâmica, presumivelmente encontrado em Silves no ano de 1955. No Livro 3.º de Inventário desta instituição, as peças foram registadas, numa única ementa, como um tesouro de moedas da época “árabe”, tendo-lhe sido atribuídos na altura do registo os números de inventário 22990-23079: “Árabes / 22.990/23.079 – 90 diremes”.



A partir deste registo, as moedas permaneceram sempre com o mesmo número de inventário nas coleções do Museu Numismático Português e do Museu Casa da Moeda. Atualmente encontram-se reunidas no interior de uma caixa de cartão azul, com uma etiqueta branca na tampa com anotação referente ao número de inventário, acompanhadas por um pequeno bilhete em papel, de 115 x 90 mm de dimensão, escrito em ambas as faces com tinta castanha e paleografia uniforme, contendo notas redigidas em português, no anverso, e em francês e árabe, no reverso. À semelhança das outras peças pertencentes à coleção do museu, a caixa encontra-se hoje em depósito no edifício sede da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em Lisboa.

Figura 1 – Face do bilhete identificativo do
tesouro monetário com indicação sobre o
respetivo contexto histórico (INCM/MCM
22990-23079).

A face primária do bilhete contém o seguinte texto (figura 1):

“Moedas arabes do tempo / da conquista de Silves 1189 / as moedas devem ter sido cu-/ nhadas nos principios do / seculo 12”.

Figura 2 – Face do bilhete identificativo do
tesouro monetário com transcrição epigráfica
e respetiva tradução (INCM/MCM 22990-
23079).

A face secundária do bilhete contém o seguinte texto (figura 2):

À esquerda: “[transcrição epigráfica árabe] / Dieu est notre maitre. / Mahomet notre / prophète. / Le Mahdi notre / Pontif.”. À direita: “[transcrição epigráfica árabe] / Il n’y a de Dieu que / Dieu. / Toutes les affaires sont / confiées à Dieu. / Il n’y a de force qu’en / Dieu.”

Embora este bilhete não seja muito elucidativo acerca das circunstâncias exatas do achado do tesouro, a leitura de uma das suas faces não deixa margem para dúvidas quanto ao fato de as moedas estarem relacionadas com a cidade de Silves. É lícito considerar-se a hipótese de este achado ter resultado de uma descoberta fortuita na cidade, apesar de não se poder avançar com nenhuma informação concreta acerca da área em que se terá procedido à descoberta – alcáçova, almedina ou arrabalde – ou até da eventualidade de esta ter tido lugar não propriamente na cidade, mas sim nas suas imediações. Para além desta informação de caráter mais objetivo, o anotador do bilhete procurou integrar o achado no contexto histórico que lhe pareceu ser mais plausível, relacionando-o com a conquista de Silves pelo rei D. Sancho I, ocorrida, com o auxílio da terceira cruzada, em 1189, e considerando a possibilidade de a sua cunhagem ter tido lugar em data situada em torno dos princípios do século XII. Embora aquele não tenha justificado a relação que procurou estabelecer entre o tesouro monetário e a conquista cristã, não se pode descartar a hipótese de o achado ter sido feito paralelamente ao de outros materiais suscetíveis de permitir idêntica aferição cronológica, como tem sido registado a propósito das intervenções arqueológicas levadas a cabo em diferentes áreas do núcleo urbano ou até de achados de moedas que nem sempre permitem caracterização arqueológica precisa.

Com efeito, uma das problemáticas que se levantam a propósito deste tesouro de moedas está relacionada com a datação das peças que o integram. No bilhete que acompanha o tesouro menciona-se a hipótese de este conjunto de moedas ter sido cunhado nos princípios do século XII. Esta hipótese é avançada com base na conjetura que sugere que o tesouro teria sido escondido por ocasião da conquista de Silves por D. Sancho I. Se esta hipótese parece sugerir o termino ante quem para a data de formação do tesouro e respetiva ocultação, deixa, contudo, por esclarecer o termino a quo para a data de emissão das moedas. Em nossa opinião, este silêncio pode ser explicado com base em dois fatores: em primeiro lugar, a inexistência de outras informações arqueológicas que permitam afinar a cronologia proposta, e, em segundo, a impossibilidade de se extraírem dados adicionais a partir da tipologia das moedas, constituída por epígrafes características de séries anônimas.

O anotador do bilhete procedeu também à leitura da epígrafe árabe representada nas faces de uma moeda que não se pode identificar com rigor, mas que se pode relacionar com a tipologia mais comum do dirham almóada de séries anônimas, traduzindo a epígrafe para francês. Se não é claro se esta epígrafe foi lida diretamente a partir de uma moeda ou se resulta da consulta da bibliografia da especialidade, como o sugere o fato de a leitura árabe vir acompanhada de tradução francesa, parece pelo menos evidente que, para o anotador do bilhete, ela terá servido de apoio à contextualização do achado e à interpretação do tesouro. Se considerarmos que a disposição da leitura no bilhete reflete uma diferenciação entre as faces primária e secundária da moeda cuja epígrafe se transcreveu, parece igualmente evidente que, para o seu anotador, a face primária continha a referência à missão profética de Muḥammad e à intermediação do Mahdī, e a face secundária, a referência à unicidade de Allāh.

Figura 3 – Fotografia de conjunto do tesouro
monetário (INCM/MCM 22990-23079).

De uma forma geral, as moedas que integram este tesouro (figura 3) encontram-se em condições que permitem fácil leitura. As moedas apresentam a tipologia mais característica do dirham almóada de séries anônimas, contendo, em ambas as faces, epígrafe inscrita em grafila quadrada semelhante à que se encontra transcrita no bilhete. O caráter exclusivamente religioso da epígrafe não permite retirar quaisquer informações cronológicas sobre a data de emissão das moedas, apesar de um número reduzido de peças mostrar epígrafe indicativa da ceca de Fez (Fās). As moedas de maior módulo medem 15 x 15 mm, embora várias outras apresentem módulo de menores dimensões com indícios de cerceio. O peso das moedas varia entre 1,49g e 1,68g, oscilando entre os seguintes valores numéricos: 1,55g (dezassete exs.), 1,54g (onze exs.), 1,60g (dez exs.), 1,59g (sete exs.), 1,57g (sete exs.), 1,58g (seis exs.), 1,53g (seis exs.), 1,62g (quatro exs.), 1,61g (quatro exs.), 1,56g (quatro exs.), 1,52g (quatro exs.), 1,67g (dois exs.), 1,63g (dois exs.), 1,51g (dois exs.), 1,68g (um ex.), 1,66g (um ex.), 1,64g (um ex.), 1,49g (um ex.).



Ainda que o tesouro seja constituído por noventa moedas, o anotador do bilhete optou por transcrever apenas uma epígrafe de apoio à leitura de todas as moedas que o integram. Esta opção parece ter sido justificada pelo fato de as moedas apresentarem características metrotipológicas muito semelhantes, que apontam não só para a hipótese de sincronicidade de circulação, mas também para a sua interpretação como tesouro monetário. Numa das faces da moeda encontra-se a fórmula característica da época almóada: Allāhu rabbunā / wa-Muḥammad rasūlunā / wa’l-Mahdī imāmunā (“Allāh é o nosso Senhor, Muḥammad é o nosso profeta, o Mahdī é o nosso guia”). Na outra face encontra-se a fórmula indicativa de alguns princípios de fé da religião islâmica.

Muito comuns na moeda identificada com o dirham, estas fórmulas dão testemunho do papel central atribuído a Ibn Tūmart como impulsionador da reforma unitarista, subjacente ao surgimento do califado almóada durante o século XII, e sublinham dois aspetos basilares da religião islâmica: a crença na unicidade de Allāh (tawḥīd) e a confiança do homem em Allāh (tawakkul). Na religião islâmica, a proclamação da unicidade divina correspondia à primeira parte da profissão de fé e traduzia a crença na existência de um Deus único dotado de uma série de atributos divinos, que reforçavam a Sua absoluta transcendência. A confiança em Deus derivava diretamente da crença na unicidade divina e compreendia, entre outros aspetos, a submissão do muçulmano aos desígnios de Deus, numa atitude de entrega confiante capaz até de proporcionar, em última instância, a união mística.

 

GOUVEIA, Mário de. Notas sobre um tesouro monetário da época islâmica encontrado em Silves (INCM/MCM
22990-23079). In: REVISTA M – Numismática e Medalhística (Portugal). Imprensa Nacional da Casa da Moeda. Lisboa, 2017. p. 63-72.

 



 


André Luiz Padilha

Graduado em direito com especialidade em meios alternativos de soluções de conflito e atualmente é estudante de História. Colecionador de moedas desde 1997 e numismata desde 2011. É um ativo divulgador da numismática nacional publicando diversos artigos e estudos por dezenas de plataformas, presta serviços como avaliador e consultor em pelo menos 9 países, também é o fundador da Numismática Castro, do CNERJ e do canal Café e Numismática. É sócio da American Numismatic Association (ANA)

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