Talvez não haja assunto mais polêmico no meio numismático que o grau de conservação de uma moeda. É comum vermos debates intensos a respeito. Neste artigo, vou expor o resultado dos meus estudos sobre os sistemas de classificação de graus de conservação de moedas, baseados na escala Sheldon e a maioritariamente utilizada no Brasil.



Não vou apresentar nenhuma nova proposta ao meio. Vou apenas transcrever algumas notas que tomei, bem como ao final, tecerei algumas opiniões pessoais a respeito. O tópico é aberto ao debate a todos, desde que seja construtivo. Não adianta apontar erros se não haverem argumentos de como deveriam ser corrigidos.

Ademais, boa leitura!

Dos três grandes grupos de conservação na escala Sheldon

A escala Sheldon, como o nome sugere, foi desenvolvida em 1948 pelo numismata Dr. William Sheldon. A escala (que ainda foi modificada posteriormente), é composta por um sistema de gradação numérico de 1 a 70, com o 1 equivalendo ao mais baixo nível de conservação (quando apenas se reconhece que o disco de metal é de uma moeda) e o 70 o mais alto nível de conservação, que só é alcançado por moedas em perfeito estado.

A escala Sheldon é dividida em três grandes grupos:

  1. Moedas circuladas: É composto por todas as moedas que possuem de grandes a moderados sinais de desgaste. São as moedas que possuem sinais de manuseio, muitas batidas, partes da moeda desgastada, com nenhum ou pouco brilho de cunho visível. Neste grupo estão inclusos as graduações desde PO1 (a pior condição de moedas, equivalente ao UTG no sistema brasileiro) até XF45 (equivalente ao SOB+ no sistema brasileiro). É também neste grupo que estão a maior parte das moedas que vemos nos fóruns e grupos de coleccionadores. Porém, o sistema brasileiro e a escala Sheldon são muito parecidos para este grupo, de modo que não discutirei sobre ele;
  2. Moedas quase não circuladas (AU – About Uncirculated): Este grupo engloba as moedas que possuem pouco (quase nenhum) desgaste nas partes altas da moeda. Todos os detalhes do cunho ainda são visíveis, com apenas leves desgastes em menos de 50% da superfície. A graduação vai desde AU50 (quando a moeda possui apenas traços do brilho original do cunho) ao AU58 (quando a moeda possui praticamente todo o brilho de cunho);
  3. Moedas não circuladas (MS – Mint State): São moedas que não circularam. Na prática, são moedas que NÃO POSSUEM NENHUM SINAL DE DESGASTE. A escala tem 11 pontos, indo desde MS60 (que é quando a moeda possui nenhum ou pouco brilho de cunho restando, com muitas marcas de contato com outras moedas do sache (bagmarks), alguns arranhões e outras mossas, desde pequenas à de tamanho moderado, espalhadas ou em grupos), até MS70 (que é a moeda perfeita, sem absolutamente nenhuma marca, com o cunho perfeito e muito bem feito, com todo o brilho do cunho). Em geral, apenas moedas comemorativas do tipo proof ou as oriundas da primeira batida (first strike) são classificadas com MS70.

Você terá acesso a tradução completa da Escala Sheldon CLICANDO AQUI.

Das diferenças e semelhanças entre os grupos AU e MS

Neste sistema de grupos que se aplica à escala Sheldon, há algumas observações importantes à fazer:

  1. Uma moeda jamais sobe do grupo 1 para o 2, nem do 2 para o 3. Por outro lado, o inverso é sempre possível: uma moeda pode sempre diminuir de graduação;
  2. É possível encontrar uma moeda numa baixa graduação do grupo 3 (MS60 – MS63) que possua apelo visual menor que uma moeda no grupo 2, como por exemplo uma AU58. Isto ocorre porque, em geral, menores graduações MS serão dadas à peças que não possuem (ou possuem muito pouco) brilho do cunho, especialmente as moedas que possuem cobre como seu principal constituinte (como por exemplo, latão, alpaca e bronze), que tendem a ganhar uma coloração escura muito rapidamente com a exposição à atmosfera. Já uma peça AU58 possui quase todo o brilho de cunho, mesmo no caso de cobre/bronze/latão, e, portanto, terá apelo visual maior. Mas elas JAMAIS irão trocar de posição na escala de graduação exclusivamente porque uma AU58 possui desgaste na superfície. Ela simplesmente não pode ser considerada MS por definição;
  3. Moedas tipo proof, as mais perfeitas que podem ser fabricadas, também estão sujeitas à mesma graduação em 70 pontos e são das poucas que podem chegar à MS70. No entanto, uma moeda desta classe que não esteja em perfeitas condições, recebe uma graduação menor, e, em geral, não é sequer graduada se possuir desgaste. É uma moeda que foi fabricada para ser perfeita, portanto, precisa permanecer assim. Obviamente, qualquer material está sujeito à ação do tempo. Por isso, é possível encontrar moedas tipo proof que tenham perdido parte do brilho de cunho e receberá uma classificação menor MS60-MS69. Moedas do tipo proof até podem apresentar escurecimento, o que é natural. Mas caso tenha qualquer marca de digital, limpeza (mesmo aquela “passadinha” com uma flanela macia), ela ganha um nota de moeda alterada (Altered Coin), o que diminui abissalmente seu valor de mercado;
  4. Há outra classe de moedas que podem ser classificadas como como MS70. São as chamadas moedas da primeira batida do cunho (first strike), que são batidas com o par de cunhos novos e em sua melhor condição, o que faz com que, algumas vezes, possuam características similares às moedas do tipo proof.
  5. Não precisamos dizer que uma moeda possui dois lados, sendo anverso e reverso, por isso em uma classificação técnica poderemos ter uma moeda com anverso MS69 e com reverso MS68, por consenso, o estado de conservação dessa moeda será classificado em MS68, sendo assim, dado por final o valor mais baixo encontrado.

A Figura abaixo mostra um exemplo das diferenças entre duas moedas dos grupos 2 e 3 (AU e MS). Duas moedas de 5 centavos de 2000: a Moeda 1 é não circulada, enquanto a Moeda 2 é quase não circulada. A moeda 1 apresenta diversas bagmarks, com escurecimento da camada de cobre em diversos pontos, tendo um apelo visual baixo, sendo classificada como MS62. Já a Moeda 2 possui apelo visual maior, com pouquíssimas bagmarks. No entanto, possui leve desgaste nas partes altas, sendo classificada como AU58.



Da escala brasileira de classificação de estados de conservação

O sistema de classificação dos estados de conservação brasileiro é bastante subjetivo. Segundo Amato & Neves (2015), podem ser divididos em 6 grupos, com algumas subdivisões entre eles, totalizando 10 níveis. São eles: UTG, R, R/BC, BC, BC/MBC, MBC, MBC/SOB, SOB, SOB/FC e FC.

Da definição de FC, temos:

Flor de Cunho (FC): Sem apresentar o menor sinal de desgaste ou manuseio, deve ter no campo o brilho original da cunhagem. Sua orla deve ser perfeitamente cilíndrica, sem apresentar mossas ou cerceamento. Todos os detalhes da cunhagem, mesmo os mais salientes, têm de apresentar sua aparência original. Não pode haver, sob nenhuma circunstância, sinais de limpeza física ou química da moeda.

Desta definição, tiramos algumas observações:

  • Moedas com digitais, não são FC;
  • Moedas com sinais de limpeza, não são FC;
  • Moedas com quaisquer sinais de desgaste, não são FC;
  • Moedas com grandes riscos ou mossas, mesmo sem desgaste, não são FC.

Sendo um pouco rigoroso, todas as moedas brasileiras que são embaladas em sachês, não seriam FC. No entanto, isto é, até certo grau, relevado, uma vez que seria virtualmente impossível de encontrar muitas das moedas brasileiras neste estado, especialmente as de circulação comum. Somente seriam FC as moedas comemorativas tipo proof e as embaladas em cartelas (como a série de moedas das olimpíadas).

Na escala Sheldon, é até fácil classificar moedas não circuladas que são embaladas em saches, pois a escala permite até a contagem de bagmarks. No entanto, na escala brasileira é mais difícil, pois a classificação de FC não especifica a presença de quaisquer bagmarks. Numa tentativa de solucionar este dilema, a Bentes propõe no artigo “Qualidade das moedas – Um estudo dos graus de conservação” uma escala numérica que seria acoplada à escala brasileira já existente. Isto permitiria criar definições para o número de bagmarks e outras marcas decorrentes do processo de cunhagem ou embalagem/transporte. Embora muito interessante, do meu ponto de vista, ainda não ganhou notoriedade e a grande maioria dos coleccionadores a ignora completamente.

Ainda, há alguns sistemas de classificação que utilizam uma denominação diferente para FDC (Fleur du Coin) para denominar apenas as moedas do tipo proof, como apresentado pelo grupo Silver Coins no seu artigo Coins Grading – Coin Grades. Todas as outras moedas, quando sem sinais de desgaste, seriam classificadas como não circuladas, ou Mint State (MS).

 

Do grau de conservação Flor de Cunho Excepcional (FDCe)

No mesmo artigo (Qualidade das moedas – Um estudo dos graus de conservação), a Bentes também propõe outro grau de classificação, o Flor de Cunho Excepcional, assim como segue:

FDCe (flor de cunho excepcional) – A moeda, como o próprio nome sugere, constitui-se em uma exceção. Considerada a moeda perfeita; sem qualquer defeito de cunho, sem marcas de contato, com todo seu brilho original. Na graduação usada pelo método americano, corresponde ao estado de conservação MS70.

Já no livro Moedas Brasileiras: Livro Oficial da Bentes (p. 48), a definição de FDCe é:

FDCE – FLOR DE CUNHO EXCEPCIONAL – considerada a moeda perfeita, sem marcas de contato, com todo seu brilho original. Na graduação usada pelo método americano, corresponde ao estado de conservação igual ou superior ao MS67.

Para todos os efeitos, sendo o livro mais oficial que o blog (e uma vez que fui informado que o artigo do blog está desatualizado), consideraremos a segunda definição.

Para podermos analisar de forma mais acurada, vamos ver a definição do estado MS67 da American Numismatic Association (ANA) publicada na 7a edição do livro The Official American Numismatic Association Grading Standards for United States Coins (tradução livre):

MS-67: Uma moeda graduada como MS-67 tem brilho e cunho originais para a data. Pode ter três ou quatro muito pequenas marcas de contato e uma maior, que não seja visualmente depreciativo. Em moedas deste tipo, podem aparecer uma ou duas hairlines, ou um ou dois pequenos riscos (arranhões) ou raspões. O apelo visual é acima da média ou excepcional. Moedas de cobre tem cor e brilho originais.

Portanto, sendo esta a definição, de equivaler à escala MS67 da escala Sheldon, podemos notar que quase nenhuma moeda brasileira, à exceção de algumas pouquíssimas e as comemorativas das cartelas ou do tipo proof, são FDCe. Praticamente nenhuma moeda que tenha alguma vez sido embalada em sache, ou mesmo ter sido cunhada pelo método normal, em que a máquina atira as moedas em uma calha, será graduada como tal.

Vale ressaltar que a ANA denomina como PERFEITA apenas as moedas que possam ser graduadas como MS70.

Algumas opiniões e conclusões

Isto posto, podemos observar que (são opiniões pessoais, que, obviamente, podem ser contestadas, desde que com argumentos palatáveis):

  1. A definição de Flor de Cunho é ligeiramente diferente entre os sistemas. Mas o que todos têm em comum é que, para ser considerada FC/FDC/MS/não circulada, em hipótese alguma A MOEDA PODE APRESENTAR QUALQUER TRAÇO DE DESGASTE, independente se ela tenha sido cunhada há 10 ou 200 anos;
  2. Moedas que apresentem marcas de digitais, sinais de limpeza e etc., não podem ser consideradas FC, podendo ser enquadradas no máximo como SOB/FC, mesmo que não apresentem desgaste;
  3. FDCe, pela própria definição, somente se aplica a moedas MS67 ou superior, o que faz com que quase todas as moedas uma vez embaladas em saches não possam ser classificadas como tal. De qualquer forma, como a definição de MS67 permite haverem algumas marcas, uma moeda FDCe não é, a rigor, “perfeita”;
  4. Numa definição mais rigorosa, somente moedas tipo proof seriam classificadas como FDC. No entanto, como lidamos muito mais com moedas de circulação comum que com as provas/proofs, há um certo grau de tolerância com relação à classificação FDC aqui no Brasil. Penso que talvez, seria mais interessante utilizar o termo não circulada (UNC) para moedas que não possuem desgaste, reservando o termo Flor de Cunho apenas para moedas perfeitas (as comemorativas de ouro e prata e, talvez [apenas talvez], as moedas em cartelas das emissões recentes das olimpíadas.

 

Sugestões de leituras interessantes para quem quer estudar classificação de estados de conservação

  1. PCGS Photograde Online: permite comparar com fotos no site todas as moedas dos Estado Unidos, permitindo uma apuração prática das condições de cada peça;
  2. US Coin Photo Grade Coin Grading Guide – similar ao anterior, porém com imagens detalhadas de cada estado de cada moeda estadunidense;
  3. PCGS GRADING STANDARDS: contém imagens e detalhes dos padrões utilizados na graduação de moedas por esta empresa certificadora;
  4. Coin Grading by Scott A. Travers: Um dos melhores e mais explicativos artigos sobre graduação de moedas utilizando a escala Sheldon. Apresenta, inclusive, alguns indicadores que podem/devem ser considerados na determinação do grau, como aspecto, design, etc.;
  5. THE NGC COIN CERTIFICATION AND GRADING PROCESS: Possui um vídeo muito bom e explicativo sobre o processo de certificação de moedas da NGC;
  6. What is the difference between Proof, Brilliant Uncirculated and Bullion coins?: Artigo com vídeo ilustrativo fabuloso sobre as diferenças entre os tipos de cunhagem ordinária (que é a forma de cunhagem da maioria das moedas brasileiras), Brilliant Uncircullatted (forma como são cunhadas as moedas do real que vem nas cartelas e o Bullions (peças que valem o seu peso em metal e não são tratadas neste artigo por fugir do escopo da discussão);
  7. Conheça a Casa da Moeda do Brasil – Departamento de Moedas: vídeo muito interessante sobre o processo de cunhagem das moedas brasileiras. Vale a pena ver.

Referências Bibliográficas

  • TRAVERS, Scott A. Introduction to the currency classification system, Coin Grading, 1990. Disponível em <http://www.coingrading.com/intro1.html>. Último acesso em 21 dez. 2017.
  • Scottsdale Bullion & Coin. Introduction to gold coin Grading. Disponível em <https://www.sbcgold.com/investing-101/introduction-to-gold-coin-grading/>. Último acesso em 21 dez. 2017.
    HEADLEY, Susan. Coin grading made simple, 2017. Disponível em <https://www.thespruce.com/coin-grading-made-simple-768384>. Último acesso em 21 dez. 2017.
  • Scottsdale Bullion & Coin. Using Sheldon scale grade premium precious metal coins, 2014. Disponível em <https://www.sbcgold.com/blog/using-sheldon-scale-grade-premium-precious-metal-coins/>.Último acesso em 21 dez. 2017.
  • Canadian Coin Certification Service. Coin Grading. Disponível em <http://www.canadiancoincertification.com/index4.php?c=4&>. Último acesso em 21 dez. 2017.
  • APMEX. Grade can help determine coin value. Disponível em <https://www.apmex.com/education/numismatics/coin-grading-pcgs-ngc-cac>. Último Acesso em 21 dez. 2017.
  • NGC. Coin Grading Scale. Disponível em <https://www.ngccoin.com/coin-grading/grading-scale/>. Último acesso em 21 dez. 2017.
  • CMI Gold & Silver. First Strike Coins or Strikeout Coins? Disponível em <https://www.cmi-gold-silver.com/article/first-strike-coins-buffalos-eagles/>. Último acesso em 21 dez. 2017.
  • Amato, C. & Soares, I., Livro das moedas do Brasil – 14ª, 2015.
  • Maldonado, R., Moedas Brasileiras: Livro Oficial, 5a ed., 2016.

Como citar esse site: HERPICH, Fábio. Comparações e observações sobre as escalas Sheldon e brasileira, Numismática Castro, 2017. Disponível em <https://numismaticos.com.br/comparacoes-e-observacoes-sobre-as-escalas-sheldon-e-brasileira/>. Último acesso em 21 dez.2017.





Fábio Herpich

Fábio é formado em Física com doutorado em Astrofísica pela UFSC. Entusiasta da numismática, tem enfoque nos estudos técnicos da graduação de moedas pela escala Sheldon, bem como as implicações relativas às propriedades dos metais sobre a aparência e conservação de moedas. É sócio da Associação de Filateilia e Numismática de Santa Catarina (AFSC) e da American Numismatic Association (ANA).

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