Primeiramente, gostaria de pedir desculpas pela baixa produtividade na construção de textos numismáticos nesses últimos meses, são resultados de uma agenda de serviços e compromissos cada vez maior e a proximidade no lançamento de um livro numismático escrito por esse que vos fala.



Recebi esses dias uma texto que me deixou, principalmente triste, por se tratar de uma acusação séria contra a artista da Casa da Moeda do Brasil, Érika Takeyama. Texto esse ao qual me recuso a reproduzir em meu site, mas que resumidamente acusa a artista de usar uma coroa francesa para fazer uma medalha em alusão a coroa britânica e gostaria de trazer esse assunto para conversarmos um pouco.

Bom, a coroa que foi supostamente identificada na medalha seria a Dauphin de France, originalmente chamada de Dauphin of Viennois. Guigues IV, Conde de Vienne, tinha um golfinho no seu brasão e foi apelidado de Le Dauphin. O título de Dauphin de Viennois foi herdado em sua família até 1349, quando Humbert II vendeu seu “seigneurie”, chamado Dauphiné, ao rei Philippe VI, na condição de que o herdeiro da França assumisse o título de le Dauphin. A esposa do Dauphin era conhecida como la Dauphine.

Lembrando que na descrição da medalha temos apenas “coroa alusiva a monarquia britânica” e não o nome de uma Coroa existente na história do Reino Unido, falaremos disso daqui a pouco. Vamos então, comparar as duas coroas agora:

Podemos ver que o item 01 trata-se de um Lírio ou Flor de Lis, heráldico, na coroa francesa, enquanto na coroa presente na medalha da Casa da Moeda é uma junção da cauda dos três golfinhos em uma alusão a uma flor de lis, acredito eu, mas não propriamente é a representação de uma.

No item 02, temos na coroa francesa uma flor de lis explicitamente caracterizada, enquanto na coroa da Casa da Moeda do Brasil temos apenas um padrão circular, sem aparente significado.

Já no item 03 podemos ver claramente que o padrão de joias usados na base da coroa são completamente diferentes, não tendo como haver confusão entre uma e outra.

Um outro detalhe que devemos destacar é que, conhecendo os padrões heráldicos, na coroa francesa podemos afirmar com certeza se tratar de um golfinho, já na coroa da medalha da CMB temos um padrão que vez por outra, além da classificação como golfinho, também é descrita como “sea monster”, ou seja, monstro marinho.



Gostaria dizer também que, apesar de discordar veementemente das ofensas feitas a Érika Takeyama, este padrão de coroa apresentado na medalha da Casa da moeda do Brasil não se assemelha com nenhuma das coroas reais do Reino Unido, para aqueles que conhecem a história da Monarquia Britânica, sabem que existem diversos tipos de coroas conhecidas. Entre títulos e coroas temporais, temos a Coroa de Santo Eduardo, Coroa Imperial do Estado, Coroa Real da Escócia, Coroa Real Tudor, Coroa do Príncipe Herdeiro, Coroa do Príncipe (Filhos e Irmãos do Monarca), Coroa do Filho do Herdeiro, Coroa do Neto do Monarca, Coroa do Duque, Coroa do Marquês, Coroa do Conde, Coroa do Visconde, Coroa do Barão, Coroa do Rei de Armas e Torse, uma coroa de cavaleiro. Ainda, que entre tipos existem personalizações, não havendo, por exemplo, somente uma Coroa do Marquês ou Coroa do Conde.

Acontece, que o “Dolphin” não é utilizado em coroas britânicas, a única que me é conhecida é
“Royal Navy Submarine Service”, mas esta não é uma Coroa e sim um Emblema de golfinho, conforme podemos ver a imagem ao lado.

Para encerrar, precisamos entender que, em um processo de cunhagem de uma medalha na Casa da Moeda do Brasil, não basta a artista escolher ou definir por si só como será a medalha em seu estágio final, que para isso, antes, há pelo menos uma dezena de permissões e aprovações que ela precisaria, restando apenas em uma atitude completamente injusta o que aconteceu com a artista da Casa da Moeda, que a ela só resta efetuar o seu trabalho, e que o faz com muito zelo e competência por sinal. Não devemos dar os descréditos da escolha desta Coroa para a artista, isso é um fato.

ATUALIZAÇÃO 1 DE 17.12.2018: Através de uma pesquisa na internet, encontramos um arquivo no site oficial da família Real Britânica (Royal.uk) o “Guidance on the use of Royal Arms, Names and Images”, que diz:

Unauthorised Use
Section 99(1) of the Trade Marks Act 1994 states that “a person shall not without the
authority of Her Majesty use in connection with any business the Royal arms (or arms
so closely resembling the Royal arms as to be calculated to deceive) in such manner
as to be calculated to lead to the belief that he is duly authorised to use the Royal
arms”.

Resumidamente, devemos traduzir que uma pessoa ou empresa não pode usar o brasão de armas da realeza britânica para que este não fique entendido como possuidor de uma autorização. Para fins de conhecimento, essa lei é baseada na Convenção de Paris para a Proteção da Propriedade Industrial de 1883, ao qual o Brasil é signatário desde 1975. Ou seja, a Casa da Moeda pode simplesmente não ter autorização para usar os símbolos reais, mas devido a importância do acontecimento, resolver ainda assim cunhar a medalha.

Foto enviada através do site Alamy Stock Photo

ATUALIZAÇÃO 2 DE 17.12.2018: Ainda, recebi como colaboração do meu amigo pessoal Edil Gomes, um pesquisador e numismata de grande conhecimento a imagem ao lado. Trata-se de uma iluminação de rua no Victoria Embankment em Londres, Inglaterra, nas proximidades do Rio Tamisa. Mesmo sendo um item de representação simplória, se colocado posto ao lado do um título de Rainha, podemos dizer que o elemento da coroa é encontrado sim na Inglaterra. O “Colored Dolphin lamp post”, por alguns sites é classificada como um Esturjão e não como um golfinho.

ATUALIZAÇÃO 3 DE 18.12.2018: Recebemos através de um colaborador a última informação deste “quebra-cabeças”, olhando o mesmo site que utilizamos na Atualização 01, encontramos um anexo onde são apresentadas coroas que poderiam ser utilizadas sem infringir os direitos de marca da Coroa Real Britânica, para nossa feliz ciência, a Coroa que a Casa da Moeda do Brasil utilizou foi a de número 5, conforme imagem ao lado. Restando parabenizar a Casa da Moeda do Brasil por todo zelo e competência que utilizaram para cunhar essa bela medalha.

Observação: O Anexo está no link ao lado: https://www.royal.uk/sites/default/files/media/annexccrowns_for_business_purposes.pdf

Façamos, pois, uma reflexão de nossas atitudes, do que pode refletir em uma pessoa que foi acusada injustamente por ter feito somente o seu trabalho, nunca é tarde para se arrepender, basta que tenhamos humildade e principalmente caráter para isso. Como carioca e um dos administradores do CNERJ, tenho visto de perto a grande vontade que a Casa da Moeda tem tido nos últimos tempos para atender verdadeiramente a necessidade do colecionador brasileiro. Podemos citar como prova o Presidente da Sociedade Numismática do Brasil, Gilberto Tenor, que tem feito essa ponte com muito zelo e competência.

Antes de apontar, sejamos mais patriotas, vamos apoiar os artistas que temos no Brasil, vamos apoiar a nossa Casa da Moeda, que tendo cometido erros ou não no passado, vive atualmente em um gestão que realmente quer fazer a diferença.



Para citar este texto:

PADILHA, André Luiz de Castro. 50 Anos da Visita de Elizabeth II ao Brasil, uma questão a resolver. Portal Numismáticos – Numismática Castro, Dezembro 2018. Disponível em: < https://numismaticos.com.br/50-anos-da-visita-de-elizabeth-ii-ao-brasil-uma-questao-a-resolver/ >.


André Luiz Padilha

Graduado em direito com especialidade em meios alternativos de soluções de conflito e atualmente é estudante de História. Colecionador de moedas desde 1997 e numismata desde 2011. É um ativo divulgador da numismática nacional publicando diversos artigos e estudos por dezenas de plataformas, presta serviços como avaliador e consultor em pelo menos 9 países, também é o fundador da Numismática Castro, do CNERJ e do canal Café e Numismática. É sócio da American Numismatic Association (ANA)

3 comentários

Vladimir Lage · 16 de dezembro de 2018 às 21:54

Caro Sr. André, este trabalho é bastante esclarecedor e inaugura o histórico pós-lançamento desta medalha. Parabéns. Se for possível, gostaria de saber onde posso encontrar outros trabalhos ou comentários sobre esta recente medalha da CMB. Vladimir Lage, Ribeirão Preto/SP, apaixonado por medalhas.

    André Luiz Padilha · 17 de dezembro de 2018 às 06:20

    Bom dia Vladimir, infelizmente não consigo pensar em algum outro portal que tenha comentado tal peça, os poucos outros relatos que vi foram no Facebook.

Rubens Bulad · 17 de dezembro de 2018 às 22:50

Tenho observado essa discussão acerca da medalha e tenho algumas coisas a dizer:

O lado da medalha que possui a coroa é o anverso, cuja modelagem foi feita por Monique Porto, e não por Erika Takeyama. Na própria descrição do anverso da medalha disponível no site do Clube da Medalha, é dito “uma coroa ALUSIVA à monarquia britânica”, portanto é uma coroa estilizada, simbolizando nobreza real, uma homenagem ao status real da pessoa da Rainha Elisabeth, e não a própria coroa do monarca do Império Britânico (Coroa de Santo Eduardo). Portanto não há erro algum de concepção na peça.

Conforme foi dito no texto acima, a artista Erika Takeyama não fez nada errado. É uma coroa ALUSIVA. E se há algo errado, as responsabilidades deste erro passam por várias pessoas, a começar pelo responsável direto pela autorização de produção da peça. Portanto, qualquer tentativa de “crucificar” a moça feita por numismatas desqualificados (como vi no facebook) é digna de risos, e inclusive passível de processo judicial por parte da artista.

Recentemente vi um numismata desconhecido no facebook, um mero palhaço, dizendo que a artista cometeu um erro, inserindo a Couronne du Dalphin, dos reis da França. As coroas são parecidas, mas nem de longe são as mesmas, conforme este portal aponta. Quem fez essa afirmação é um completo analfabeto em heráldica, e em simbolismo das monarquias francesa e britânica.

O mesmo ilustre desconhecido acusou um colega numismata de “plágio” por divulgar que a coroa poderia ser a francesa. Pior ainda, foi ver um estúpido suposto “presidente” de uma alegada entidade numismática do Paraná “aplaudindo” a “pesquisa” desse sujeito e ainda humilhando outros colegas numismatas que divulgaram o texto sobre a coroa. Novamente, esse imbecil que preside tal entidade, uma pessoa completamente desequilibrada, toma atitudes de desunião no meio numismático. Até quando o poder financeiro de uma pessoa será superior ao poder intelectual e cultural? Até quando vocês, numismatas sérios, vão agüentar esse turco ignorante em vosso meio?

A questão é: Porque não foi representada a verdadeira coroa britânica,a Coroa Imperial do Estado, também chamada “Coroa de Santo Eduardo”? Meu palpite é que a Coroa, sendo uma das jóias da monarquia britânica e símbolo da mesma, é igualmente uma Marca Registrada, e sua utilização por terceiros, mesmo como silhueta, acarretaria em pagamento de Royalties. Por isso, preferiu-se usar uma coroa ALUSIVA, e não a original. Caberia as entidades numismáticas SÉRIAS investigarem isso a fundo, mas tudo o que vemos são deboches, humilhações e risos patéticos vindos do “presidente” e do “diretor” de um pequeno clube local no Paraná, que longe de ser um centro de estudos numismáticos, é apenas uma banca de comércio de discos metálicos. Uma vergonha.

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