A idéia básica das moedas bimetálicas não é nova. O que é considerado por muitos como sendo uma das primeiras cunhagens de protótipos bimetálicos remonta a 1730, quando um token de prata com um plugue central em cobre foi cunhado em Köln, na Alemanha, embora o inglês Rose Farthing 1625-1649, durante o Reinado de Charles I, tivesse uma cunha de latão inserida no cobre como um dispositivo anti-falsificação.

Ao longo do séculos XIX e XX muitas fichas e medalhas foram cunhados por vários países, mas a primeira moeda bimetálica a ser amplamente utilizada nos tempos modernos foi a moeda de 500 Liras, emitida pela Itália em 1982. Hoje, mais de 117 países emitiram moedas bimetálicas e o número está crescendo. Essas moedas são cunhadas em muitas combinações diferentes de metais preciosos e básicos: Ouro amarelo e branco, ouro e prata, prata e titânio, prata e níquel, aço inoxidável não magnético e bronze-alumínio, e combinações de cobre ou latão e níquel, etc.

A grande preocupação quando essas moedas foram introduzidas foi a de que elas desmontariam durante o uso, mas isso não ocorreu. Centenas de milhões delas estão em circulação em todo o mundo, e esse problema simplesmente não ocorreu. Há também muitos poucos erros de cunhagem de anéis perdidos ou centros ausentes.

Um método antigo de produzir moedas bimetálicas era colocar um revestimento de um metal sobre um núcleo de outro metal. Isso foi feito frequentemente para disfarçar uma cunhagem degradada, por exemplo, usando um núcleo de cobre e um “banho de prata”. Roma emitiu pela primeira vez o Antoniniano como uma moeda de prata de 2 denários, mas valendo apenas 1 ½ denário. Essa moeda foi gradualmente rebaixada e atingiu seu nível mais baixo durante o reinado de Galiano (253-68), quando era uma moeda de cobre com uma finíssima camada de prata que rapidamente se desgastava. Isso foi possível mergulhando os discos de cobre numa solução de nitrato de prata de modo que o cobre da superfície fosse eletrolisado e entrasse em solução, e o metal prateado fosse depositado no disco.

As últimas moedas de prata de Henrique VIII da Inglaterra foram gradualmente rebaixadas até a última emissão (1544-47), cujas eram feitas de uma liga de uma parte de prata e duas de cobre (ou seja, 0,333 fino). Para fazer essas moedas parecer conter mais prata do que eles realmente produziram, os discos em branco foram, provavelmente, banhados em prata, ou embebidos em uma solução de ácido fraco para dissolver um pouco da superfície do cobre. No entanto, com o desgaste de circulação, a superfície de prata mais rica foi desgastada, particularmente nos pontos altos, como o nariz do rei, e isso levou ao seu apelido de “nariz de cobre velho”. Um bom número de moedas modernas também foram banhadas, ou galvanizadas, como as atuais moedas de circulação brasileiras.

Após a restauração de Charles II da Inglaterra, uma grande reforma da moeda ocorreu. Isso incluiu a emissão de HalfPennies e Farthings de cobre com peso total. No entanto, o preço do estanho havia caído, colocando as minas de estanho da Cornualha em crise, e o rei, como dono do Ducado da Cornualha, estava perdendo dinheiro. A fim de ajudar a indústria de estanho (e as finanças do rei), foi decidido cunhar todos os halpennies e farthings em estanho. Para ajudar a evitar a falsificação, um plugue quadrado de cobre foi inserido no centro dos discos em branco antes de serem cunhados. Assim, essas eram moedas bimetálicas de estanho com um plugue de cobre e foram emitidas de 1684 a 1692, durante os reinados de Carlos II, James II e William e Mary.

A Inglaterra também cunhou vários ensaios bimetálicos. Durante a Commonwealth e o Protetorado (década de 1650), e novamente durante o reinado de Charles II (particularmente entre 1665 e 1676), um número significativo de ensaios (tanto oficiais quanto privados) para cunhagem de metais básicos era bimetálico. Essas peças foram cunhadas por combinações como cobre com um anel de latão interno, reverso de cobre e anverso de latão, assim como latão com um centro de cobre, estanho com um anel interno de latão, e latão e estanho com um anel de cobre interno.

Novamente, no reinado de William e Mary, peças experimentais para uma proposta de cunhagem em “metais misturados” foram batidas (datadas de 1692) de cobre com um centro de estanho, e cobre com um fino anel de latão, tanto no anverso quanto no reverso. No entanto, em 1694, a Inglaterra reverteu para o cobre por sua cunhagem de metais básicos e parece ter abandonado seus experimentos de cunhagem bimetálica até 1844, quando Joseph Moore, de Birmingham, produziu seus centavos “modelo”, em cobre com um centro de metal branco. Esses eram uma proposta privada para substituir a pesada cunhagem de cobre então em circulação.

A Casa da Moeda dos Estados Unidos experimentou um centavo bimetálico para manter o tamanho da moeda gerenciável e atender aos requisitos da Lei de Cunhagem de 2 de Abril de 1792. Os primeiros centavos centrais de prata foram acertados de 17 a 18 de dezembro de 1792. Cada um foi fabricado à mão na Casa da Moeda, com os operários primeiro fazendo o disco em branco em cobre, e em seguida, perfurando um pequeno buraco, e inserindo um plugue de prata, e finalmente cunhando as moedas usando cunhos apropriados.

Outro tipo de moeda bimetálica é onde há um grande núcleo de um metal com um anel (de outro metal) ao redor do núcleo. Este tipo de moeda bimetálica vem aumentando em uso na última década. Alguns exemplos são:

– Centro de Bronze-Alumínio e anel em Aço Inoxidável (Austrália, 5 Dollar 1996);

– Centro de Bronze-Alumínio e anel em Cupro-Níquel (Nova Zelândia, 50 Cents 1994);

– Centro de Prata e anel de Ouro (Áustria, 500 schilling 1995);

– Centro de Bronzital (liga de alumínio, níquel e cobre) e anel de Acmonital (liga de Ferro, Cromo, Magnésio, Silício, Enxofre e Fósforo) (Itália, 500 Lire 1982);

– Centro de Cupro-Níquel e anel em Alpaca (Cobre, Níquel e Zinco) (Brasil, 1 Real 1998).

Outro tipo de moeda “bimetálica” é onde há um grande núcleo de três metais com um anel (de outro metal) ao redor do núcleo. Embora isso não seja realmente uma moeda bimetálica, elas parecem ser, e provavelmente estão sendo considerados pela comunidade numismática como tais. São exemplos:

– Centro de Níquel revestido de Níquel-Latão e anel em Cupro-Níquel (União Européia, 1 Euro 2002);

– Centro de Níquel revestido com Cupro-Níquel e anel de Níquel-Latão (União Européia, 1 Euro 2002);

– Centro de Aço Inox e anel de Aço-Carbono revestido com Bronze (Brasil, 1 Real 2002).

A imagem abaixo ilustra um método de unir os discos em branco bimetálicos. O anel externo é fabricado por uma ferramenta de matriz múltipla, que perfura o orifício central antes de se desfazer da tela. A borda externa levantada da placa, formada por “rimming”, ajuda a redução da pressão de cunhagem. O interior é feito muito parecido com um disco em branco comum, exceto pelo fresamento especial aplicado à borda. Quando os dois componentes são cunhados pela prensa de cunhagem, o anel externo deforma e o metal flui dentro das reentrâncias fresadas, proporcionando travamento anti-torção eficiente e aumentando a resistência da união. Esse método é utilizado pela Krupp VDM, um dos principais fabricantes alemães de moedas. Existem outras maneiras de unir discos em branco bimetálicos, com cada fabricante tendo seu próprio método preferido.

A força necessária para expulsar o núcleo interno do método Krupp destruiria totalmente a moeda. Krupp relata que a força necessária para expulsar um núcleo interno de 25mm de um anel externo de 25mm seria de 450 a 510 kPa, ou uma pressão de aproximadamente 68 a 72 libras por polegada quadrada.

Bacias contendo discos em branco que produzem a moeda bimetálica de 1 Real do Brasil: A bacia com os discos do núcleo (à esquerda) e a bacia com o anel externo (à direita). Ambas as peças serão encaixadas ao mesmo tempo em que ocorre a cunhagem da moeda, dentro da câmara de cunhagem da prensa.

Se duas ou mais folhas ou tiras de metal são colocadas em cima umas das outras com uma folha de alto explosivo acima e abaixo, e o explosivo é detonado, as folhas ou tiras de metal são soldadas juntas e sua borda aparentam um sanduíche de metais. O sanduíche de metal resultante é então referido como um metal “revestido” e pode ser trabalhado de maneira similar a outros metais, incluindo os vários processos para fazer moedas.

A Alemanha Ocidental utilizou várias combinações de metais folheados para sua cunhagem. O aço revestido de bronze foi usado para moedas de 1 Pfennig (1948-49) e 2 Pfennig (1967-95). O aço revestido de latão foi usado pra moedas de 5 Pfennig (1950-1995) e 10 Pfennig (1949). Utilizou-se níquel revestido com cobre e níquel para as moedas de 2 Mark (1969-1995) e 5 Mark (1975-1995). A Russia (após o fim da URSS) usou aço revestido de bronze pra suas moedas de 1 Rublo 1992 e de 5 Rublos. Devido ao aumento do preço pra prata em meados da década de 1960, os Estados Unidos decidiram parar de usar prata em suas moedas de circulação, e a partir de 1965, usar um metal revestido, e escolheram camadas externas de cupro-níquel com um núcleo de cobre.

Original text in, How bimetallic coins are made – Fleur de Coin, January, 2019. Available in: <https://www.fleur-de-coin.com/articles/bi-metallic>



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Para citar este texto:

BULAD, Rubens. Como as moedas bimetálicas são produzidas. Portal Numismáticos – Numismática Castro, Janeiro 2019. Disponível em: < https://numismaticos.com.br/como-as-moedas-bimetalicas-sao-produzidas/>.


Rubens Bulad

Graduado em História com mestrado em História da Arte pela UFG. Ex-Presidente do Clube Filatélico de Mato Grosso - CLUFIMAT, de Cuiabá-MT e Secretário-Geral do CECOF - Clube Filatélico-Esperantista de Correspondência e Colecionismo, de Goiânia-GO. Filatelista desde 1994, colecionando selos postais de todo o mundo, e Numismata desde 2012, colecionando moedas do Brasil e da Ucrânia. Historiador, Pesquisador e Tradutor, atualmente membro da American Numismatic Society (ANS).

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