Aproveitamos o embalo da França como Campeã do Mundo de 2018 para falarmos de uma moeda que já observamos a muito tempo, trata-se da mais valiosa moeda de ouro da numismática Francesa, que é completamente bela. Sou muito suspeito para falar de moedas francesas pois sou apaixonado por elas e tenho várias na minha colecção particular, mas a que falaremos hoje está muito longe da minha realidade financeira, muito, muito longe mesmo.



Trata-se de uma moeda “Louis d’Or”,  antigas moedas Francesas, que remontam desde o Rei Luis XIII e que foi substituída pelo Franco Francês na época da revolução, também foi cunhada durante a “restauração dos Bourbon” sob o regime do Rei Luis XVIII, sendo assim uma moeda com emissão maior que um século.

Luis XIII da França foi Rei de 1610, quando tinha apenas oito anos, até sua morte em 1643. Como não poderia assumir interinamente o trono durante sua menoridade, a grande Rainha-Mãe da França, Maria de Médici, serviu como primeira Regente do reinado de seu filho. Durante o seu reinado vários acontecimentos marcantes ficaram na história, como 1626 que a Rainha Ana D’Áustria, então sua esposa, participou de um complô juntamente com o Conde de Chalais para assassinar Luis. Ana também foi traidora do trono ao passar informações secretas da Coroa Francesa para a Coroa Espanhola, Ana também abortou sucessivamente para que Luis não tivesse herdeiros. Ainda assim, eles tiveram dois filhos, Luís XIV da França, sucessor direto de seu trono e que teve reinado mais longo da história do mundo, sentando no trono por 72 anos (Lembrando que Elizabeth II está sentada no trono britânico por 66 anos).

Seu segundo filho foi “Monsieur” Felipe I, Duque de Orleãns, ao contrario de seu irmão, gostava de viver em Paris. Sempre ia ao teatro e a Opera, oferecia grandiosas recepções no Palais Royal e ia a mercados e feiras. Se tornou assim um personagem tremendamente popular na capital e ao mesmo tempo em um representante do Rei-Sol na velha capital, ao menos socialmente. Por último, Monsieur foi um grande mecenas, não só por sua generosidade mas também por seu gosto refinado.

Após, essa não tão breve introdução, podemos conhecer a Dix Louis d’Or, uma, literalmente, grande moeda francesa, pois essa, em duas variantes, tem um diâmetro de 50mm, tamanho muito fora do padrão das moedas que estamos acostumado, é quase 2x uma moeda de 1 real nacional.  Essas moedas são conhecidas como “pièces de plaisir”, pois não foram cunhadas para circulação normal e por isso são extremamente raras, acredita-se que poucas duzias dessas moedas foram cunhadas, dar-se daí seu valor elevado e seu alto grau de raridade.

Acredita-se que esta peça foi criada para competir com a moeda de ouro espanhola de 8 escudos, que pesava cerca de 27g, e se colocarmos uma ao lado da outra veremos que Luis XIII foi muito feliz em sua criação, uma moeda foi criada não só na superioridade do peso do material nobre, mas também extremamente superior no quesito estética, pois foi o talentoso escultor e gravador francês Jean Varin que cunhou os primeis Louis d’Or, este que veio por convite do Cardeal Richelieu, então Primeiro Ministro e braço direito do Rei da França.

Até aquela data, as moedas de ouro francesas, as coroas de ouro, eram feitas com o martelo, de acordo com a antiga técnicas herdadas da Idade Média. As peças eram, portanto, irregulares, tinham aparência artesanal. O novo Louis d’Or é atingido por uma nova técnica, a prensa de rosca.

Essa técnica de fabricação mecânica que permitia produzir peças de melhor qualidade era conhecida desde o século XVI. Mas os trabalhadores extremamente conservadores da Casa da Moeda francesa se opuseram à fabricação mecânica das moedas, lembrando ainda que Jean Varin foi nomeado como chefe da casa da moeda em 1647, coube a ele os avanços adquiridos pela tradicional casa de cunhagem francesa. A criação do novo Louis d’Or foi uma oportunidade para mostrar a superioridade da produção de peças seguindo o novo procedimento de cunhagem adotado. Teria sido impossível fabricar peças tão grandes com as antigas técnicas de fabricação.

Esta moeda foi a maior e mais pesada moeda de ouro francesa já inventada. Hoje, no entanto, a Monnaie de Paris é capaz de fabricar moedas de ouro de 85 milímetros de diâmetro que pesam 1 quilo. As peças do 10 Louis d’Or são um excepcional sucesso técnico e estético da época. Eles mostram a ambição do poder francês, que se tornaria no século XVIII a primeira potência mundial.

O valor dessas moedas raras e excepcionais atinge valores altíssimo nos dias atuais. Sempre que uma dessas peças é oferecida para venda, o que não é uma coisa comum, os preços voam para longe. Podemos citar como exemplo uma Dix Louis d’Or vendida em 2014 em um leilão no Hotel Drouot, em Paris, por um valor que deu a essa moeda o recorde de mais cara da história da numismática francesa, ao qual foi arremata pelo assustador valor de 2.981.750 euros, para que você tenha uma ideia, se convertêssemos esse valor hoje teríamos uma soma maior que 13 milhões de reais.




André Luiz Padilha

Graduado em direito com especialidade em meios alternativos de soluções de conflito e atualmente é estudante de História. Colecionador de moedas desde 1997 e numismata desde 2011. É um ativo divulgador da numismática nacional publicando diversos artigos e estudos por dezenas de plataformas, presta serviços como avaliador e consultor em pelo menos 9 países, também é o fundador da Numismática Castro, do CNERJ e do canal Café e Numismática. É sócio da American Numismatic Association (ANA)

1 comentário

Karoline Alves · 15 de julho de 2018 às 19:45

Trabalho admirável! Incrível matéria e moeda!

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